Os filhos de Adam


Homens e hominídeos
Em nossos artigos, em vários casos, tratamos da Torah expressando o Universo e suas propriedades por meio de simbologia. Nos baseamos na autoridade, já consolidada pelos sábios em todos os séculos precedentes, do uso e certificação de PaRDeS, que nada mais é que um método hierarquizado de estudo da Torah por caminhos que ligam extremos da interpretação empírica ao segredo; a região fora do alcance da percepção racional humana, onde todas as possibilidades estão ocultas esperando um evento surpreendente para que o segredo seja decifrado.
Embora se saiba que as pesquisas científicas lidam com aspectos físicos da realidade material que apontam claramente para um processo evolutivo, enquanto a narrativa bíblica da criação do homem está relacionada com duas criações sendo uma espiritual e outra física em que o fôlego da vida é insuflado diretamente pelo Criador nas narinas de Adam, há quase seis mil anos, como alguns defendem. Os teólogos, de forma geral, preferem ignorar os fatos insistindo e ensinando que os paradigmas da ciência são falhos e a descrição literal do Gênesis contempla toda a verdade sobre a criação. Falsa afirmação que gera a polêmica sobre a criação do homem.
As revelações da Torah e ciências
A Torah, nas suas entrelinhas, sugere duas criações distintas para Adam, sendo uma especial e singular descrita em Gen. 1,27 onde nada se fala sobre um corpo físico, mas da cópia da imagem do criador cujo texto hebreu é: 
 ויברא אלהים את האדם בצלמו, בצלם אלהים ברא אתו. זכר ונקבה ברא אתם
Essa é a criação especial do espírito do homem, porque usa-se בצלם ou seja, “imagem” de D'us que é invisível, portanto a imagem o espírito do homem também é invisível. Então segundo a Torah primeiro criou-se o espírito do homem e após, o corpo em outra criação como descrito em Gen. 2,7 onde se fala da formação de um corpo físico. (וייצר יהוה אלהים את האדם מן עפר האדמה, ויפה באפיו נשמת חיים. ויהי הדם לנפש היה). Nota-se no trecho algumas ações executadas pelo criador: (וייצר) – “formou' - no hebreu bíblico a frase está no passado por causa do wav no início da frase, mas no hebraico moderno a forma sem o wav está no tempo futuro do verbo (ליצור). A pergunta seria: Mas, em que se diferencia da primeira, o relato da segunda criação de Adam? Exatamente pela formação de um corpo e a inserção da alma nesse corpo já formado, pois é o que significam as frases que expressam a outra ação do criador - (ויפה באפיו נשמת חיים) – literalmente transferiu em suas narinas o fôlego da vida, dando ao homem o status de alma vivente. Este fôlego em hebreu é (נשימה) ou Neshamah. Notemos as diferenças nos relatos quando constam o aparecimento de outros tipos de vida cita-se de forma mais clara que a própria natureza produza os seres, como por exemplo: Gen. 1,20
(ויאמר אלהים ישרצו המים שרץ נפש היה ועוף על הארץ על פני רקיע השמים
que as águas produzam almas vivas na forma de répteis (pululantes) e aves que voem na expansão, ou seja, a Torah diz em seu contexto, com todas as letras, que a alma do corpo de Adam é semelhante às almas das outras criaturas que são chamadas (נפש היה), pois por meio da frase (ויהי הדם לנפש היה) o Adam físico também é alma vivente. A energia que anima o corpo físico de Adam é apenas uma alma comum como todas as outras, dada a mesma classificação. Ora isso concorda em uma parte com a teoria da evolução comum, e com as evidências científicas do corpo humano ter-se desenvolvido evolutivamente através dos tempos a partir de organismos menos complexos, até atingir um veículo com atributos suficientes e necessários para receber e conter a alma sagrada, sendo este outro nome que se dá à Neshamah. Por isso há uma diferença, pois apenas Adam tem a capacidade do discurso racional, ou seja, quando recebe o fôlego divino, essa capacidade única entre as outras almas, lhe é transmitida.
Semelhanças constrangedoras
Em que se pese a opinião religiosa e o orgulhoso status dos filhos de D'us, é fato que anatomicamente o corpo humano evidencia relação estrutural com formas de vida bem mais simples. Por exemplo na microbiologia, observa-se que há enzimas no corpo humano com funções semelhantes às de enzimas encontradas nos organismos de outros seres aparentemente não relacionados. Um exemplo é o gen que controla a orientação e posicionamento do braço no ser humano é encontrado em todos os vertebrados e insetos. Uma semelhança foi verificada experimentalmente, quando implantou-se amostras deste gen no genoma da drosófila. Uma vez inseridos passam a determinar o posicionamento e a orientação da asa da mosca! O mesmo se aplica a genes que atuam no desenvolvimento do olho, entre outros. É improvável que a semelhança entre eles seja mera coincidência! Não apenas para cientistas estes fatos evidenciam a existência de um ancestral comum, e especialmente num período mais recente na cadeia evolutiva um ancestral comum que deu origem aos primatas hominídeos e os grandes símios. Ainda é possível observar semelhanças em parte do esqueletos de braços e mãos humanas, com membros inferiores de alguns répteis e cetáceos. Estes ossos não são semelhantes nas dimensões, mas todos estão presentes nestes órgãos. É largamente conhecida a semelhança nas estruturas cerebrais do homem, ratos e macacos, embora nesse caso a evolução proveu, na própria espécie humana, diferenças de tamanho e funções verificadas entre a própria espécie, como o Neanderthal, Cro-magnon e Sapiens sapiens. Contudo a semelhança mais importante e constrangedora, que elimina de vez a criação independente do homem das demais espécies, está na embriologia, posto que o embrião humano, à semelhança da gema das ovas dos peixes também desenvolve uma bolsa de gema a seguir uma cauda e, então, formam-se pregas semelhantes às fendas das guelras dos peixes. Do ponto de vista biológico, a história do desenvolvimento do feto humano aparenta recapitular processos filogênicos, contudo isso ocorre apenas na estrutura primitiva de formação do feto, e não nas fases de especialização das formas finais. É um momento muito curto, quando apenas os órgãos fundamentais de sustentação da vida estão funcionando.
Testemunho histórico antropológicos
A antropologia também corrobora a teoria evolucionista com a presença de antigos fósseis atribuídos ao homo hábilis, homo erectus, e em extratos geológicos mais recentes, fósseis do “homem de Cro-magnon”. Em relação a este último, seu esqueleto é extraordinariamente semelhante ao esqueleto do sapiens sapiens, com destaque para o volume e formato craniano. Artigos e publicações científicas sobre esses fósseis e os artefatos a eles associados, como alguns teólogos poderiam pensar, não são fruto da maquinação de cientistas e ateus. Mas as datas das suas descobertas geram o paradoxo das datas bíblicas quando confrontadas com a história, pois sabe-se que a prática e uso da agricultura, a fabricação de tecidos, e a fabricação de tijolos e utensílios de barro cozido estão aproximadamente entre oito a dez mil anos. Como visto, bem maior que a data bíblica referida para Adam arar a terra. As coisas se complicam ainda mais quando se considera que há pinturas rupestres com datas situadas entre dez e trinta mil anos passados, ao menos vinte e cinco mil e trezentos e poucos anos antes da referência bíblica para Adam. Do ponto de vista de uma teologia consistente, desmentir estas evidências equivale a ignorância. Aliás, não há por que negá-las, uma vez que a verdade, seja ela qual for, independe do conhecimento humano e por outro lado há recursos disponíveis com explicações satisfatórias nas interpretações da tradição escrita e oral feitas por alguns sábios como Onklos, Rachi, Maimônides e Naĥmanides, em que se sugere, nas entre linhas, que o período dos aproximadamente seis mil anos recentes é da instalação da Neshamah no corpo do homem moderno, ou seja, um recurso capaz de interagir com o mundo espiritual.
As resistências da teologia e sua refutação
A primeira objeção da maioria dos teólogos à possibilidade do homem atual ter evoluído de um ancestral comum está relacionada com o tempo decorrido, uma vez que tomam o relato de Gênesis literalmente, a segunda está no caso deste ter evoluído de um primata ancestral da mesma ramificação dos grandes símios (orangos, chipanzés e bonobos), aparentemente desonroso para quem é a imagem de D'us, que tem a capacidade de se dirigir ao Criador e indagar sobre as próprias origens! A primeira objeção é facilmente refutada por argumentos que Adam recebeu a incumbência de arar a terra há menos de seis mil anos, enquanto há registros históricos de que já vinha sendo arada ao menos quatro mil anos antes! A segunda objeção é refutada pela constrangedora semelhança de carga genética entre homens e grandes símios de maneira que, por exemplo, a relação genética com os chimpanzés bonobos é de 99,8%!
O paradoxo da Torah be-Al Pê
A Torah be-al Pê, parece questionar através dos seus postulados o seguinte: Como a explicação científica pode ser verdade, se o Talmud vem definindo até hoje que a partir do início a cada Roch Hachaná tem-se contado um período para a idade do mundo de menos de seis mil anos? Onde ficaram os anos que faltam? Para tentar resolver a questão, no tratado Vaycrá Rabá 29,1 e outras consta que a maioria dos sábios concordam que em Roch Hachaná comemora-se não a criação do mundo, mas da alma de Adam, e os seis dias citados em Gen. 1 estão excluídos do calendário. Até aqui esta explicação da atribuição de datas a Adam aparenta resolver o paradoxo e se preserva a confiabilidade que a Torah possui no Universo, ou no mínimo no planeta, pois relata a criação espiritual do homem. Para efeito de estudo vamos analisar outras fontes talmúdicas que se propõe explicar o problema. No tratado Haguigá 12a e comentários de Rachi, sobre Gên. 1,5 “e foi a tarde e a manhã dia um”, explicam que os dias de Gênesis são de 24 horas desde o primeiro dia. Aparentemente é consenso entre os comentaristas no Talmud que os seis dias descritos no Gênesis foram períodos de vinte e quatro horas, contudo algumas fontes clássicas e o Rambam afirmam que antes do início não é possível dizer o que houve; seria impossível saber o que aconteceu ao Universo. A pergunta seria: Se cada dia tem 24 horas, por que então excluir esses seis primeiros dias de 24 horas do restante dos outros também de 24 horas, e que se seguem à criação de Adam? O Ramban explica o texto de forma surpreendente, ao sugerir que estes primeiros seis dias contêm em si (כל ימות העולם), ou seja, todas as eras e segredos do universo. E continua analisando as palavras (ויהי ערב, ויהי בקר) citadas no final de cada dia, diz que as palavras (ערב, בקר) não poderiam referir-se ao término e início de dias normais, porque de acordo com a Torah o Sol somente veio a existir no quarto dia! Ou seja, ele excluiu os seis dias de Gen. 1 do calendário normal do Universo, portanto é outro assunto, outro período que precede a criação física, mas dentro do projeto prévio que conduziu a materialização do Universo! E, na sua sabedoria ele diz mais: “um leitor inteligente vê que há problemas nesse trechoe explica que as palavras “vayehi érev” não querem de fato dizer “e foi a noite”, porque as letras (ע,ר,ב) aín, resh e beit, a raiz de érev, significa caos, mescla, desordem. Explica que é por isso que a noite se chama (érev -ערב), porque quando o sol cai no horizonte a visão se torna confusa, e o significado é então “houve desordem”, ou seja, no início de cada dia da criação havia o caos referente ao que foi criado até se completar os seis períodos, quando então se estabeleceu a ordem! Já a palavra (boker–בקר) usada para manhã, na conclusão de cada dia da criação é o oposto de érev, porque de manhã, quando o sol sobe no horizonte o mundo se torna visível, inteligível, visitável (bicoret) de (לבקר). Na verdade elas são os pontos extremos entre o caos e a ordem, porque do caos para a ordem há um processo; da desordem para a ordem, do caos para o cosmos. Esta é, no meu ponto de vista, a mais brilhante explicação sobre os seis dias jamais dada por alguém.
Teorias sem sustentação - tempo relativo
De fato com base no conhecimento científico incompleto, alguns comentaristas atuais pensaram resolver o paradoxo aplicando o conceito da relatividade do tempo proposto por Albert Einstein, assim procuraram propor uma solução dentro do paradigma do tempo relativo. A pergunta seria: poderia a relatividade do tempo explicar que todas as eras do universo estejam confinadas em seis dias solares, ou seja, períodos de 24 horas cada um? Não, pois a ciência informa claramente que desde o instante inicial até o instante atual em que este artigo é lido o Universo evidencia ter por volta de 14,5 bilhões de anos. Portanto tal explicação não se sustém, pois nem tudo no Universo pode ser calculado pela relatividade principalmente quando se leva em consideração dados não probabilísticos como fósseis. Por outro lado a relatividade do tempo não é geral, mas sim restrita, ou seja, não é a mesma simultaneamente para todos os sistemas, enquanto a criação tem o caráter geral referindo-se à formação do Universo, logo os seis dias não podem ser aplicados. Mesmo que pudesse, um simples período além dos aproximadamente sete mil anos do início da escrita já seria suficiente para revelar a inconsistência da teoria se aplicada explicitamente aos seis dias normais de vinte e quatro horas da criação. Muitas partes da lei oral, principalmente no Midrash constam revelações surpreendentes sobre a física e a vida no Universo, porém codificadas, por isso não se relacionam em dar uma solução empírica para o assunto. 
Teorias sem sustentação - relação tempo x tamanho aparente 
O argumento que leva em conta a relação temporal entre o tamanho e a aparente idade do Universo, infelizmente é uma falácia, pois num período de seis dias as dimensões do Universo já eram astronômicas. Na verdade essa aparência nunca se deu, uma vez que nesse período a matéria estava muito difusa e ainda não se haviam formado galáxias, estrelas e muito menos sistemas solares! Hoje se sabe que para formar sistemas planetários há necessidade de nuvens de gás e poeira com elementos pesados, e isso acontece na explosão de estrelas massivas (supernova), que levam do seu desenvolvimento até o evento não menos que algumas centenas de milhões de anos, em média 100 a 500 milhões de anos. O máximo que um argumento deste pode fazer é ridicularizar a teoria. Mas mesmo assim, o fato do Universo aparentar certa idade não resolve o problema dos fósseis, de fenômenos geológicos com registros de espécies animais extintas e registros geológicos que alteraram a aparência do planeta. Portanto, a explicação que diz que a idade aparente do Universo está de acordo com a natureza do tempo em um mundo em que as leis de relatividade fazem parte das leis da natureza, é uma falácia e mostra apenas o conhecimento superficial destes comentaristas que querem justificar o injustificável. 
Teorias sem sustentação - lei de Hublle 
A explicação do padrão de deslocamento para o vermelho, fenômeno causado pelas variações do comprimento da onda de radiação inversamente proporcional da frequência de radiação, como efeito do deslocamento ou aproximação de um objeto que emite radiação, como um corpo negro, que corrobora a expansão do universo, também não autoriza o argumento do tempo relativo. Uma vez que não é possível prever que o mesmo fator de deslocamento aplica-se também a índices observados na ocorrência de eventos distantes, quando a época está tão distante no tempo que o fator não possa ser observado na radiação detectada, nesse caso o evento não pode ser considerado em nenhum cálculo, portanto também fora de qualquer conclusão sobre o argumento proposto da relatividade do tempo.
A natureza mística da Torah
Nossa tese que refuta esse argumento da relatividade do tempo, se baseia em que o tempo não se aplica somente às fases inicias da criação senão também, e principalmente à evolução da vida no planeta após já ter a idade e aparência próxima de hoje, ou seja, entre 1,2 bilhão a mais ou menos quinhentos milhões de anos atrás, deve-se entender que a linguagem da Torah nesse caso, não representa senão um relato simbólico como expressou o Ramban brilhantemente. Portanto, todo conhecimento que pode ser extraído da Torah escrita ou oral, que venha revelar segredos reais da natureza que a ciência com suas ferramentas não seria capaz, somente podem ser descobertos encriptados e quando algum fato surpreendente revelar o segredo. Se os teólogos continuarem insistindo com a ideia dos seis dias de vinte e quatro horas na criação material do Universo, diante dos postulados dos sábios e das incontestáveis evidências científicas, além de desmoralizados, também serão responsáveis por desencadear a desmoralização generalizada da Torah. Cabe aqui uma advertência aos comentadores que fazem parte do contexto étnico cultural da Torah que sejam discretos e racionais, para, como advertido por Maimônides sobre a simbologia dos midrashim, "não venham os tolos e se perturbem".
O Paradoxo das duas versões de uma única criação
Mesmo se o trecho da Torah passasse incólume por todas estas explicações e argumentos anteriores há um problema ainda maior se o estudante insiste na versão literal, pois aí as coisas se complicam quando se percebe que há duas versões diferentes com respeito à criação do homem. Como já discutido no início do artigo, quando se presta atenção nestes dois últimos trechos verifica-se que, na primeira ação, Adam, além de coisa nova, uma vez que se usa o verbo (criar = libróלברא), foi feito da essência divina, pois é o que indicam as palavras (imagem=tzelemצלם) e (semelhante=doméhדומה). Já sabemos que como D'us não é material, então o Adam criado aí, também não é material, senão espiritual, ou seja, o espírito do homem. Na segunda ação criadora encontra-se a palavra hebraica para formar = litzór ליצר a partir de algo existente. O interessante nestas palavras e seu uso é que muitas vezes são utilizados como sinônimos, mas são verbos de ações incompatíveis para o mesmo objeto ao mesmo tempo. Antes há uma sequência, pois algo é criado ou formado e a utilização válida destas ações está em que a criação (bará) do nada, isso precede a formação de algo a partir de um material (o barro), ou seja, o espírito de Adão precede a forma humana.
Uma explicação para o mistério
Como regra e ensino na Cabalah somente se forma algo que foi criado preliminarmente, pois toda realidade material foi em princípio, um simples pensamento, um projeto. Por exemplo num desenho em que primeiro surge a ideia da forma e posteriormente a formação do objeto que já foi concebido na mente. Vide apêndice no final do artigo como exemplo. Por isso, em relação ao homem, ele foi criado com dupla característica: espiritual e material, sendo que ambas partiram de algo existente: na primeira da essência divina na criação e na segunda do pó da terra na formação do homem natural, essa é a carne composta de elementos bioquímicos que se encontram no pó e semelhantes à carne das outras criaturas, principalmente o sangue cujo núcleo da hemoglobina é um átomo de ferro. O primeiro foi criado no sexto dia, mas o segundo foi formado através dos processos evolutivos da natureza até que ficasse em condições de receber a Neshamah a menos de seis mil anos. Isso é um segredo que a Torah torna visível em dois trechos: Gen. 1,1 "no princípio D'us criouברא os céu e a Terra"..., e Ex. 31,17 “em seis dias D'us fezעשה os céus e a terra" fica esclarecido que enquanto o uso do verbo criou – ברא, sugere uma ação instantânea de D'us no passado (concluída), o significado do verbo fazer = לעשת indica um processo que exige tempo e, se for o caso material disponível como se percebe na frase: "... em seis dias ...", ou seja, num espaço de tempo. Então com o passar do tempo um ser foi formado a partir do barro, ou seja o material disponível, mas este ser ainda não estava completo. Faltava o desenvolvimento para receber a alma sagrada da vida humana que vinha diretamente de D'us. A pergunta seria: O que se pode deduzir daí? Que o desenvolvimento da formação do homem não foi instantâneo e que ele sofreu evolução durante um certo tempo, até atingir condições psíquico intelectuais favoráveis à instalação da Neshamah diretamente do Criador! Conclui-se em decorrência, que se o relato da Torah, no trecho lido é válido, mas somente será possível verificar esta validade se tratar-se de um texto criptografado!
Os filhos de Adam
Até aqui enfatizou-se a Torah escrita, mas na lei oral decorre de discussões como Sanhedrin 58b na dúvida se Adam teria casado com sua filha, ali está escrito:
vem e ouve! por que não se casou Adam com sua filha? Assim como Caim se casado teria, com sua irmã ... mas, ao contrário, ela teria sido proibida [a Caim]? - … posto que foi permitido, permaneceu assim. R. Huna disse: um pagão pode casar com sua filha. Mas se você perguntar, por que Adam não se casou com sua filha, não era Adam um pagão? - para que Caim se casasse com sua irmã, para que o mundo fosse edificado pela graça.
Para evitar esse problema de Adam ter se casado com filha, até aí uma dúvida, pois como Caim teria se casado com uma mulher, sua irmã, se somente seu pai poderia gerar uma? Nesse ponto os sábios chegaram à conclusão, que para resolver tal irregularidade, era necessário que houvessem mulheres que não fossem filhas de Adam, uma vez que Adam não poderia ser considerado pagão!
Outros dão esta versão: R. Huna disse: Um pagão não pode se casar com sua filha; A prova é que Adam não se casou com sua filha [pois Adam não era pagão]. Mas essa prova é falaciosa: A razão é que Caim deve casar com sua irmã, para que o mundo seja edificado pela graça de [Adam].”,
Doutras explicações, embora, como foi dito, mesmo falaciosa, na opinião de alguns, a prova era única no sentido de corroborar a existência de filhas de hominídeos precedentes a Adam com as quais ele poderia ter coabitado de maneira que não agisse como os pagãos que se casavam com suas mães, filhas e irmãs. No tratado Erubin 18a (Shabat II), o assunto é dissertado num comentário sobre as referências ao nascimento de Set, o terceiro filho de Adam e Eva, em dois trechos diferentes da Torah. 
Gen. 4,25 - “E tornou Adam a conhecer sua mulher, e ela deu a luz um filho a quem chamou Set”, e 
Gen. 5,3 “... viveu Adam 130 anos, e teve um filho ... e deu-lhe o nome de Shet”. Cita que estes dois versículos indicam que após o assassinato de Abel, Adam e Eva separaram seus corpos por 130 anos, e somente após este período Adam coabitou com Eva novamente donde teve um filho. A pergunta seria: Mas o que ele fez durante estes 130 anos, posto que teve filhos e filhas e Eva apenas os três homens? Tudo indica que ele procriou filhos com as filhas dos hominídeos que já habitavam a Terra, antes da neshamá por ordem de D'us, pois em algum lugar Ele ordena: gen. 1, 24 "צוצה הארץ נפש היה" produza a terra alma vivente, que é a alma que todos os seres vivos têm, ou seja, os hominídeos foram produzidos por esse meio, e Adam, embora tenha uma alma de hominídeo, também possui a neshamá. O Talmud ainda comenta que esses filhos de Adam com as mulheres, filhas dos hominídeos, eram de fato crianças, por natureza animais racionais, e por meio de Adam a Neshamah lhes era insuflada, para que fossem completos. Isso significa que os humanoides anteriores a Adam, não eram ainda seres humanos completos. Alguns sábios como Maimônides escreve na Guia dos Perplexos 1,7, baseado em Erubin e no Zohar, que estas crianças eram seres humanos em forma e inteligência, mas não em espiritualidade. Esta teoria, além de informar sobre hominídeos já existentes também explica que na época da Neshamah já havia cidades e povoações, porque conforme Gen. 4, 16 e 17, Caim, filho de Adam, foi para Node e ali coabitou com uma mulher (filha dos hominídeos) e constituiu família, gerando um filho de nome Enoque, por outro lado, fica claro não ser a intenção do sofer relatar Adam como o primeiro homem! Portanto, um bom indício da existência de outros hominídeos procriando e gerando filhas foi esse fato envolvendo Caim que casou-se em Node antes de Adam ter se ajuntado de novo com Eva, pois caso isso tivesse sido invertido poderia ser que tivesse casado com uma das suas irmãs. 
A revelação de um segredo para o futuro
Não se pode ignorar que o esforço dos sábios em dar estas explicações tinham como objetivo primordial validar o relato da Torah, contudo apontavam para algo surpreendente a ser conhecido num futuro distante; a evolução do homem! Contudo, em relação à alma dos filhos de Adam com as filhas dos hominídeos, seus descendentes futuros, por um quesito hereditário, é evidente que estas crianças passaram a herdar a Neshamah do seu pai e assim tinham também a alma sagrada, e o mesmo se diga dos filhos de Caim que era filho legítimo de Adam e Eva. A pergunta seria: Mas porque os sábios provavelmente não foram claros acerca disso, inclusive omitindo a questão de Caim? Em nosso entender, é por causa da minhag que atribui a descendência de alguém à sua mãe, mas Caim não poderia ser citado por causa do assassinato do seu irmão o que diminuiria a santidade da família! A pergunta seria: Qual a nossa base para tal discordância? Em primeiro lugar, se não fosse assim, toda humanidade estaria fora do projeto de Adam. Em segundo que, a descendência de alguém depende em maior parte do seu pai que possui em suas células sexuais os gens masculino e o feminino, enquanto a mãe apenas um deles! Quanto a isso em nosso artigo “O enigma de Adam”, neste blog, comentamos sobre a criação de Eva a partir do genoma de Adam que lhe transmitiu um par de um dos gens, e por isso a constituição genética das suas células possui apenas um dos gens existentes no homem, que possui dois cromossomos distintos.
Argumentos de Naĥmanides e Onklos sobre a Neshamah
O Ramban concentra-se num prefixo supérfluo ל-נפש, lâmed, que, na sua concepção, transmite a ideia de transformar algo por uma ação externa como no ato de transferir a alma. Assim, diz “… e assoprou em suas narinas a alma da vida e Adam fez-se alma viventeויפה באפיו נשמת חיים ויהי האדם לנפש היה. Comenta ainda que a preposição ב-אפיו indica mudança na essência da personalidade e, nesse caso o texto do versículo esteja afirmando que Adam já era um ser vivo completo e foi transformado em um tipo especial de homem pelo assopro divino. Evidentemente ele queria dizer que já havia hominídeos precedendo a criação da alma humana, mas aquele hominídeo pré existente não era plenamente humano. Há informações sobre a exposição dessa história ao menos quatrocentos anos, por Onklos, antes do Talmud e mil anos antes do Ramban. Contudo antes da neshama a alma humana era semelhante às almas dos animais irracionais, como já vimos neste artigo que a expressão nefesh haya – נפש היה, uma alma viva ocorre na Torah em três casos: referindo-se a animais aquáticos (Gên. 1,20), a animais terrestres (Gên. 1,24) e para seres humanos como “…. em uma alma viva” (Gên. 2,7).
No caso dos animais, Onklos explica o termo literalmente, “uma alma viva”. Mas para os seres humanos, por causa da preposição “em”, ele traduz o termo como “e o homem tornou-se em um espírito falante”. Na sua concepção, o que diferencia o homem de um animal racional é a capacidade de se comunicar espiritualmente e pela palavra, propriedade inexistente nos demais animas que habitam o planeta. Resumindo, a diferença, não é a força e nem a inteligência, mas a espiritualidade humana. Neste paradigma, o atributo da fala é o elo entre os aspectos físicos e espirituais da existência devido à Neshamah que faz a conexão entre o ser e a unidade transcendental que permeia toda a existência, e se refere à declaração do Shemá que cita: “Ouve, Israel, o Eterno é teu D’us, o Eterno é Um”, ou seja, a unicidade transcendental é a marca do Eterno gravada na alma sagrada.
Conclusão
De acordo com esses argumentos, hominídeos com feições humanas, inteligência e organização social superior aos demais primatas não humanoides precederam e coexistiram com Adam. Aparentemente, os antigos comentaristas como o Ramban, o Rambam e Oncklos estavam, senão totalmente, parcialmente convencidos dessa realidade. Portanto sob este paradigma, a descoberta de fósseis e de criações humanas da antiguidade, não oferece surpresa para a Torah e os sábios antigos que escreveram e comentaram no Talmud. Na definição literal da Torah, um homem é um animal racional, embora um hominídeo especial, no qual foi insuflada a alma sagrada criada a pouco menos de seis mil anos; a Neshamah, há mais ou menos 5760 anos da época em que escrevo esse artigo. É necessário saber que a Neshamah não pode deixar nenhum vestígio fossilizado para provar sua aparição na história da humanidade, mas os resultados de suas ações são as provas, e têm sido fartamente documentados em registros arqueológicos e invenções humanas que alteraram e vêm alterando em velocidade crescente e de forma drástica o ambiente nesses últimos quase seis mil anos. No advento da escrita, do comércio e das grandes cidades cujas datas estão entre cinco a seis mil anos atrás, que é coincidente com a época de Adam. Destaque especial se dê para a escrita que, além de satisfazer necessidades históricas e aplicações comerciais produziram registros sobre descobertas e métodos científicos. O comércio, de forma distinta, foi criado pela humanidade para satisfazer as necessidades materiais das grandes cidades, mas acabou também por produzir a mescla de várias culturas resultantes da interação da Neshamah com cada ambiente e condições. A pergunta que permanecia sem resposta até então, era por que as grandes cidades emergiram nesta época, mas agora se sabe que está claramente relacionada com o aparecimento da Neshamah. Foi a partir deste momento que ocorreu o grande desenvolvimento tecnológico, os avanços e transformações no Universo. Tais eventos são obra dos homens receptores da Neshamah herdada de Adam por seus descendentes e que foi passada diretamente do Criador.
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Apêndice:
Como funciona, segundo a Cabalah este mecanismo de ideias e a realização de objetos no mundo físico? Ensina-se de acordo com o Zohar que um objeto se realiza desde a sua concepção passando por quatro mundos até surgir no mundo mais inferior, ou seja, o mundo físico: Esses mundos assim se distribuem:
  1. Em primeiro lugar aparece o mundo das emanações, conhecido por Atzilut; o processo interior pelo qual a “possibilidade de existir”, também conhecido no paradigma quântico como "potencialidade", o nada relativo, torna-se uma realidade; é o plano divino e a sede das Sephirot.
  2. Em segundo vem Briah; criação, que entre outras coisas significa o movimento do espírito geral para a criação do projeto pré definido em Atzilut.
  3. Em terceiro vem Ietzrah que é principalmente a formação pela qual o espírito geral deixou desprender de Si inúmeros outros poderes nesse processo para concretizá-lo.
  4. Em quarto vem Asiah; a produção; o universo visível, o mundo sensível onde são viabilizados os sentidos e onde nos movemos. É a esse mundo da produção que pertence a alma (nephesh) que interage com o físico, é por assim dizer, o operador do dispositivo de conexão (veículo); esse é o nível mais inferior da criação.
    Esses quatro mundos tem várias interpretações e significados, e portanto esse texto não esgota o assunto, em termos da criação de algo físico, o que é nossa intenção nesse pequeno comentário.
Esses itens se repetem em todos casos de realização. Um simples exemplo permite ver a lógica em que cada um ocorre:
Imagine que você construa uma casa, o que deve fazer primeiro?
  1. Em primeiro aparece a ideia, isso é Atzilut.
  2. Em segundo aparece o projeto minucioso com cálculos, etc; isso é Briah.
  3. Em terceiro vem a realização do projeto em termos de mão de obra isso é Ietzrah
  4. E finalizando você começa assentar tijolo sobre tijolo; isso é Asiah; a materialização da ideia, o resultado final do que efetivamente já aconteceu em níveis superiores.
Na verdade, a Cabalah ensina que, as ações que ocorrem no mundo material, longe de novidades, são reflexos do que já aconteceu de velho. Em outras palavras já foi planejado, calculado e assumido o risco ou a vantagem. O mundo físico, portanto não é um mundo de criação, senão um mundo de resultados, ou seja, a saída do processamento!
Segundo a tradição expressa na Torah e na Mishnah, os hominídeos que não foram gerados ou não têm herança genética em Adam, não têm a Neshamah; são animais, embora racionais, controlados apenas pelos instintos carnais, ou seja, os atributos da vida física. Para estes não há uma perspectiva espiritual pois assim como os irracionais possuem apenas essa vida material.

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