Para
efeito de estudo da atribuição de nomes é necessário definir algo
que pode ser referenciado por um nome, a isto definimos como “objeto
passível de ser nomeado”. Antes de tudo é necessário saber que o
conceito de nome e nomeações é uma invenção da humanidade,
inclusive atestado pela Torah em Gen 2, 19 quando o homem nomeia aos
animais, após a linguagem que insere o conceito de objeto, pois em
qualquer linguagem, um nome sempre representa um substantivo
“objeto”. Essa conceituação ocorre quando o homem começa a se
comunicar, perceber, identificar, classificar e organizar as coisas
do seu ambiente. Em síntese a função de nome é identificar um
objeto individual numa coletividade de objetos do mesmo tipo temporal
espacial. Um nome, portanto, é uma locução ou, graficamente, um
conjunto de caracteres organizados por qualquer combinação de
alfabéticos, numéricos e especiais (a, b, c, 1, 2, 3, &, %,
$….), cuja função é designar um objeto que pode ser pessoal ou
impessoal, real ou imaginário, concreto ou abstrato, fixo ou móvel.
Contudo a cada um destes objetos, além de nomeados, se deve associar
uma localização, ou seja, o objeto deve estar confinado num espaço
finito com inúmeros referenciais ao entorno, além de critérios de
validade que identifiquem suas propriedades e funções. A este
espaço que pode ser real ou imaginário se denomina espaço de
existência do objeto. Portanto, todo objeto passível de ser
referenciado nominalmente, e confinado num espaço finito com
inúmeros referenciais ao entorno, também é finito e representa um
nome comum, por outro lado, algo que não possa ser referenciado
dentro dos limites de um espaço finito real ou imaginário, não
pode receber um nome!
Objetos
concretos, abstratos e imaginários.
Desde
que haja objeto abstrato, sua localização está num espaço
imaginário, nesse caso um objeto abstrato, confinado num espaço
imaginário, embora não tenha um corpo físico, todavia tem um
formato imaginário, que da mesma forma pode ser referenciado por
inúmeros referenciais reais ao entorno. De acordo com este paradigma
se pode referenciar um objeto imaginário, por exemplo, uma
singularidade num espaço real, e um objeto real e abstrato, num
espaço imaginário. Por exemplo o amor: “É um objeto real, fixo,
impessoal e abstrato, nomeado, que pode ser referenciado num espaço
imaginário por inúmeros seres (referenciais) reais ao entorno”.
Alguém pode questionar essa teoria citando que o amor, um objeto
abstrato, é eterno. Trata-se obviamente de uma premissa inválida
que faz parte do senso comum, pois amar é uma opção do ser, logo a
ação de amar somente existe se o ser amante existir. Geralmente objetos
deste tipo expressam manifestações da alma, portanto são objetos
auxiliares, não possuindo existência própria são dependentes da
existência do ser sem a qual não tem sentido ou utilidade alguma!
Limite
temporal dos objetos referenciáveis.
Até
aqui citou-se teorias que levam em conta referenciar algo que esteja
nomeado, e portanto confinado num espaço finito, real ou imaginário
com inúmeros referenciais ao entorno. A pergunta seria: A divindade
pode ser confinada e referenciada dentro de um espaço finito com
inúmeras referências no entorno? Se isto for possível, então
pode-se dar a ela um nome do tipo comum, porém esta hipótese
implica que esta divindade está limitada pelo espaço, e por
definição é finita. Mas, de acordo com a proposta monoteísta do Israel, a
divindade não é temporal e nem finita, então não é possível
atribuir um nome comum à divindade, pois não é possível confinar
o infinito num espaço físico ou imaginário que por definição é
finito!
O
segredo e o significado ocultos no tetragrama.
Agora
que sabemos que a divindade não pode ter um nome comum, faremos uma
análise dos atributos da divindade que se ocultam no tetragrama, com
base no hebraico mishnaico, cuja maior parte das escrituras judaicas
foi escrita. Antes de entrar nessa etapa, convém observar que o
hebraico faz parte das antigas línguas semíticas, fortemente
intuitiva, com um tipo de gramática tardia e muitas vezes estranha
às estruturas das línguas ocidentais, inclusive o hebraico moderno,
que são de forma geral muito manipuladas e sofisticadas.
Dentro
deste paradigma, o tetragrama
יהוה
1
- Não é um nome do tipo comum de expressão pessoal
2
- Não pode identificar um objeto confinado em um espaço limitado
por inúmeros referenciais no entorno porque não representa um
objeto finito
3
- Não representa diretamente uma pessoa, mas descreve atributos da
divindade
De
fato ele representa esses atributos ao menos por meio de duas frases
ocultas no seu contexto:
Utilizando
combinações de caracteres, conforme a tradição cabalística
denominada (חכמה
ב-צרוף)
do verbo (לצרף)
= combinar, se encontra a primeira frase: (יה
הוה)
-Yá hovê. Cujo significado é: o D´us da aliança (יה)
está presente (הווה)
– que é o tempo presente (zman hovê) do verbo (להיות)
“ser, estar..”. Uma peculiaridade na língua hebraica é que não
se pode utilizar o tempo presente do verbo “ser” na primeira
pessoa. Em referências em que se faça necessário a utilização
deste verbo na primeira pessoa, omite-se o verbo ou utiliza-se a partícula (הוא).
Exemplo:
Eu
sou o talmid katan – אני תלמיד קטן - אני
הוא תלמיד קטן.
Os
estudantes observarão que, embora aplicada à primeira pessoa, a
frase aparenta estar na terceira pessoa do singular, até porque a
referência ao verbo na verdade, neste paradigma, está oculta –
seria algo mais ou menos assim: eu [sou – oculto] ele talmid katan!
Contudo essa tradução não está perfeita porque a frase (אני
הוא תלמיד קטן)
não admite tradução direta numa língua ocidental como o
português, senão uma interpretação equivalente. Um conflito entre
o hebraico e línguas elaboradas pela erudição humana como
português significa que no primeiro se usou a intuição recebida
(התקבלה),
enquanto na segunda o cinzel da mente humana corrompeu as pedras do
altar, ou seja, a pureza primordial estabelecendo leis confusas e manipuláveis. Provavelmente alguns professores ou estudantes
encontrarão uma ou outra contrarrazão, mas somente se estiverem
lidando com a língua de acordo com a gramática das línguas não
semíticas, o que significa estudar hebraico de acordo com regras das
línguas ocidentais. Um exemplo seria identificar o tetragrama
“יְהוָה”
com o vocábulo
Jeová, contudo ao fazer isso, limita-se
o tetragrama a um nome comum e um único significado, por outro lado,
as funções de consoantes no hebraico não são idênticas às
funções de consoantes num idioma não semítico, como o português.
De fato fixar o tetragrama, como uma palavra única, é uma operação
que foge completamente aos critérios do idioma hebreu, pois
considera-se as vogais nativamente ligadas às letras consoantes além
do que é necessário incluir mais um ĥolem no primeiro hê para
criar o som vocálico “o”. Os massoretas utilizaram essa recurso
de nikudot para evidenciar sons vocálicos associados às consoantes
como um artifício para aqueles que não têm vivência com o
hebraico e não como a definição de uma palavra única em seu
significado. Isso é um erro, uma vez que, no hebraico, as consoantes
podem suportar outros tipos de sons afetados por outras vogais
expressando outras palavras e mesmo frases. O erro consiste em que o
agente trata de um idioma semítico como se fosse um idioma
ocidental, ou seja, ele escreve uma palavra ocidental usando
caracteres e convenções do hebraico. No idioma português, por
exemplo Jeová ou João serão sempre Jeová ou João, nunca
ocorrendo que possam representar outras palavras ou frases, pois as
vogais estão explícitas e são estas e não outras. O conhecimento
baseado na formação do agente, que decorre da vivência, contra o
conhecimento baseado apenas na informação, mesmo acadêmica,
permite que se note nuances da linguagem evitando não apenas o erro
estudado como muitos outros que têm sido cometidos em artigos e
vídeos na Internet e mesmo trabalhos escritos em papel.
Apenas
como informação, alguns têm ensinado que a restrição se aplica
apenas ao verbo (להיות)
no presente da primeira pessoa, senão apenas à divindade, mas este
é um critério da língua em si. Contudo isto ocorre com o verbo na
primeira pessoa (הווה)
apenas em uma frase oculta no tetragrama.
A
outra frase que está oculta no tetragrama é:
Duplicando
a primeira sílaba (יה)
= “o D'us da aliança” resulta a frase (יהיה)
que corresponde à terceira pessoa tempo futuro (זמן
עתיד)
do verbo (להיות)
– (yheiê) = será. Permutando o iud pelo primeiro wav, na frase
anterior altera-se o tempo e resulta (והיה)
– (ve-haiah) que correspondente à terceira pessoa tempo passado
(זמן
עבר)
=”e foi”, vê-se surgir a frase: (יהיה
והיה)
– yheiê vehaiah = cujo significado é “será e foi”. Nas duas
frases as regras são as mesmas também para o hebraico moderno.
Então por meio da tradição extrai-se o significado (יה
הווה יהיה והיה)
do tetragrama e que são atributos eternos ou infinitos da divindade,
pois a frase, na sua leitura, indica que não há limites de tempo ou
espaço. A frase pode ser interpretada, mas que expresse o sentido
literal como:
(יה
הווה יהיה והיה)
= Será e foi, o D'us da aliança está presente.
Como
se poder ver nesta explanação, o tetragrama não representa um
objeto finito e nem um nome que possa ser referenciado, mas sim
descritores dos atributos divinos. Estes atributos, referentes ao
Eterno, têm sido ensinados na Tanach e em todas confissões
monoteístas conhecidas.
Pronúncias
auxiliares
Todas
as formas de referência à divindade, geradas pelos israelitas em
todos os tempos, como o Eterno, Elohim, Adonai, El Shadai, Hashem,
Adoshem e El Elion não expressam um objeto que se possa nomear e
referenciar num espaço finito, mas todas representam descritores de
atributos, palavras e ações. Os israelitas conviveram com isso
desde a experiência de Jacob, ao perguntar o nome de D'us: Vê-se
que a resposta foi dada através de uma questão como se vê em:
ויאמר:
לא
יעקב יאמר עוד שמך,
כי
אם-ישראל,
כי-שרית
עם-אלהים
ועם-אנשים
ותוכל – Gen.
32,29
Ao
mudar o nome de Jacob para Yisrael, o sofer no relato usa o descritor
Elohim.
וישאל
יעקב ויאמר:
הגידה-נא
שמך. ויאמר:
למה
זה תשאל לשמי?
ויברך
אתו שם – Gen.
32,30.
Já
nesse trecho Jacob utiliza a palavra הגידה
do verbo להגיד
, ou seja, ele
pede ao seu oponente, relatado como אלהים,
que o informe sobre o seu nome. Veja que, embora tachado de Elohim,
este não é um nome comum, caso contrário Jacob não faria a
pergunta sobre o nome. O substantivo correspondente a este verbo
המגיד
(o
maguid) é um contador de histórias, isso pode indicar que
mesmo para Jacob um nome para D'us seria um mistério! Isso pode ser
reforçado pela ação do ser respondendo a Jacob por meio de uma
questão: “porque perguntas sobre o meu nome – למה
זה תשאל לשמי?”
Futuramente ante a insistência de Moisés, Ele responde ainda por
meio de atributos. Ex. 3,14 אהיה
אשר אהיה – serei
o que serei! No trecho hebreu ainda se nota a dificuldade do sofer em
relatar o evento quando se faz referência ao Eterno, essa é sempre
indireta, por meio de atributos e/ou poderes como:
Ex.
3,2 (וירא
מלאך יהוה
אליו בלבת-אש
מתוך הסּנה,
וירא,
והנה
הסּנה בער באש והסנה,
איננו
אכל) - anjo
de YHWH representa um descritor de poder;
Ex.
3,4 (וירא
יהוה כי סר לראות,
ויקרא
אליו אלהים
מתוך הסנה ויאמר:
משה,
משה
ויאמר הנני)
– dois descritores; Elohim (אלהים)
e YHWH (יהוה)
no mesmo versículo!
Ex.
3,6 (ויאמר:
אנכי
אלהי
אביך, אלהי
אברהם אלהי
יצחק, ואלהי
יעקב. ויסתר
משה פּניו,
כי
ירא מהביט אל-האלֹהים)
– usa elohim e suas variações.
Ex.
3,7 (ויּאמר
יהוה,
ראה
ראיתי את-עני
עמי אשר במצרים)
– usa apenas o tetragrama
Ex.
3,11 (ויּאמר
משה אל-האלהים:
מי
אנכי כי אלך אל-פּרעה,
וכי
אוציא את-בני
ישראל ממצרים)
– usa Elohim.
Ex.
3,12 (ויאמר:
כי-אהיה
עמך, וזה-לך
האות כי אנכי שלחתיך בּהוציאך את-העם
ממּצרים תעבדון את-האלהים,
על
ההר הזּה)
Ex.
3,13 (ויּאמר
משה אל-האלהים:
הנה
אנכי בא אל-בני
ישראל,
ואמרתי
להם, אלהי
אבותיכם שׁלחני אליכם.
ואמרו-לי
מה-שּמו,
מה
אמר אלהם)
Observações
finais
O
que se percebe nestes trechos é que nem a Moisés foi revelado algum
nome próprio e pessoal, senão apenas descritores de atributos e
poderes. Nota-se também a extrema dificuldade do sofer ao se referir
à divindade, pois nenhum dos descritores por ele utilizado é um
nome próprio! A pergunta seria: Haveria um dia no passado em que os
Cohanim, dentro do Templo Santo, tenham se referido ao Eterno por um
nome próprio senão por descritores? Já sabemos que os nomes
próprios se referem a entes finitos e temporais. Enquanto o Zohar
diz que os crentes fazem uma imagem do Eterno, ao mesmo tempo que
pergunta, conforme a Isaías 40, 18 (ואל-מי,
תּדמיון
אל; ומה-דמות,
תערכו
לו): “que
semelhança (תדמיון-דמות)
lhe fareis?”, no entanto diz que é segundo uma imagem (mental) que
o homem se dirige ao Eterno. Contudo, de acordo com as confissões
monoteístas é necessário se dirigir ao Eterno sem pensar em
nenhuma imagem, senão visualizar na mente os seus atributos e suas
palavras. Observe que a palavra (דמות)
foi utilizada na primeira criação de Adam, ou seja, a criação do
espírito de Adam que também não tem forma!
Gen.
1,27...ויאמר
אלהים,
נעשה
אדם בצלמנו כדמותנו.
*
Relativamente a "elohim - אלהים",
além de um descritor é também um título genérico cujo
significado pode ser "Deus" ou "deuses", ou seja,
essa flexão de número não existe o que torna a explicação de que
"elohim - אלהים"
seja plural majestático decorre de um erro de interpretação muito
particular. Pode-se explicar supondo que a terminação “im” deu
ao estudante a ideia que se referisse a plural. Quanto a isso pode-se
comparar com a palavra hebraica
“חיים”
que é a
palavra vida, portanto singular. Também serve como exemplo a palavra
Deus que mesmo terminando com “s” é singular. Outro conceito
impreciso é que pronunciar o nome do Eterno é proibido, mas o
correto é que é impossível fazê-lo.
Inserção
de caracteres no tetragrama
Por
isso tudo, o que certas pessoas estão fazendo e ensinando hoje em
dia, inclusive na Internet, constitui profanação do nome sagrado
que não se pronuncia senão em termos de descritores, com a
agravante de, para isso inserir caracteres e frases estranhos ao
tetragrama. Ainda cometem outra profanação maior porque o nome que
eles geram e atribuem à divindade é um nome do tipo comum que pode
ser confinado em um espaço limitado com inúmeros referenciais ao
entorno, logo sem os atributos de eternidade, pois representam seres
finitos, o que pode significar idolatria.
-
regra da letra vaw, valores
e funções, no
tetragrama
os
valores da letra vaw impõe uma incerteza quanto ao som
1.
vocálicos
- ו”o”“u”....
.... de acordo com regras gramaticais, quando em função de conjunção o vaw conjuntivo poderá ser afetado por outras vogais relacionadas nas frases.
2.
controle
- ו“v” conjunção, aplicada se o próximo carácter leva som vocálico“u” conjunção, aplicada se o próximo carácter é uma consoante
A
pergunta é: para alterar o nome, que D'us nos livre disso, como
escolher o som ou função do vaw entre as opções aí expostas?
Diante
disso, se algum queira definir um nome estranho ao que é proposto
como impronunciável, além de não ter certeza alguma sobre qual
deverá escolher, o
fará,
por alta recreação, escolhendo
um deles por decisão
desautorizada e
unilateral.
-
regra da métrica
Deut
4, 1 e 2
A
Torah possui 304.805
letras hebraicas pretas em fundo branco.
Essas correspondem à
parte visível da nuvem no deserto e são as que regem o mundo da
razão na alma
israelita, o que para
nós, quanto à nossa racionalidade basta, sendo suficientes e
necessárias no mundo físico. Um
algorítimo estabilizador universal segue essa métrica para manter o
Universo funcionando. Se
a métrica for alterada
por qualquer letra
acrescentada, subtraída
ou alterada; histórias,
fatos e o destino da humanidade será alterado drasticamente,
sem que se saiba para o
que e onde,
estabelecendo assim o caos por desorganizar
o código que rege a estabilidade do Universo implícito no seu
contexto.
A
implicação nesse caso é que qualquer alteração, inclusão ou
retirada de algum carácter na Torah produzirá o caos no Universo e
o sofrimento de toda criatura viva. Tal procedimento, além da
profanação da
santidade divina, ainda constitui
blasfêmia.
A
parte mais perniciosa
do procedimento é a alteração do Nome Sagrado, pois transfere para
um ídolo o controle da humanidade,
Ainda
cometem outra profanação maior porque o nome que eles geram e
atribuem à divindade é um nome do tipo comum que pode ser confinado
em um espaço limitado com inúmeros referenciais ao entorno, logo
sem os atributos de eternidade, pois representam seres finitos, o que
pode significar idolatria.
Obs:.
Talmid katan é o pseudônimo que eu utilizava como articulista do
site Imigrante de Israel entre 2003-2010.
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