A
Torah no relato da criação fornece curiosas ideias sobre a
estrutura universal, principalmente quando se imagina que havia uma
energia primordial não dimensionada que empacotava em si todo
universo. Dá ainda a entender que todo esse imenso complexo
observado, embora parcialmente, apresenta as mesmas propriedades em
qualquer local da sua imensidão, e ainda mais que todo ele estava
encapsulado numa única partícula, que foi comparada com uma
semente, sem dimensão e sem peso, como a definiu ribi Naĥmanides, alav hasalám,
com as palavras: "dak meod; ein bo mamash";
muito pequena nada nela havia. No Talmud Ĥaguigah 2, nas entrelinhas
da Torah, analisando a palavra ĥoshekh, conforme Gen. 1,2
והארץ
הייתה תהו ובהו וחשך על-פני
תהוון explica
que a palavra ĥoshekh - חשך
ali
significa um fogo negro, uma energia negra, uma classe de
energia que é tão poderosa que não pode ser vista1,
devido sua força de atração impede a saída da luz, e não apenas
da luz, mas até mesmo o próprio espaço é encolhido, de tal forma
que essa poderosa força introspectiva absorve-se a si mesma
desaparecendo da realidade tridimensional. Contudo acerca de Gen. 1,
4 o Talmud explica que essa mesma palavra significa apenas
obscuridade; ausência de luz, mas que seria também tal escuridão
como a das dez pragas que acometeram o Egito por ocasião da
libertação de Israel, e a espessa escuridão que separou os
israelitas dos egípcios quando se aproximavam do mar Vermelho. No
contexto da Torah, outras palavras, também não se entendem sempre
por sua definição comum. Por exemplo, "maim"
tipicamente significa água, mas o Rambam2, alav haslám,
disse que no estado original da criação, a palavra "maim"
também significa os blocos construtores do universo. Há razão para
essa afirmação uma vez que essa água não poderia ser a água
(H2O) como conhecemos hoje, porque o universo ainda não
estava formado; não havia ainda elementos químicos e as condições
físico-químicas favoráveis para formação da molécula de água.
Embora na época do Rambam provavelmente a fórmula da água fosse
desconhecida, contudo já percebia que não poderiam ser estas águas
físicas.
A
quantificação do tempo
No
versículo Gen 1,1- בראשית
ברא אלהים,
observa-se que a palavra בראשית
-
“no princípio”, aparentemente deixa uma dúvida se o Criador
estaria sujeito à noção do que se conhece como início; que
surge de uma sequência vinda do conceito sobre o objeto3
conhecido por antes (o que precede). Ora se alguém
admite que o Criador estaria sujeito a essa sequência, também
deveria admitir que Ele mesmo estaria sujeito a um início. Isso
seria admitir que no desconhecido ambiente da Sua existência havia
os conceitos de passado e futuro e deixaria uma dúvida
se antes dEle haveria algo, e se esse algo O transcendesse. A
pergunta seria: Como resolver esse problema se a palavra significa
literalmente (o que significa ler a Torah na sua forma literal)
no início? Que início seria esse é a dificuldade insuperável
diante do que vive eternamente! Contudo embora pareça não haver
solução, a própria Torah ajuda a entender o problema, pois a
palavra בראשית
é
também um acróstico de ברא
ראשית e
nesse contexto significa: criou o início ou ainda [Ele]
criou o início de forma que todos os objetos e poderes que
dão suporte à noção de começo (suporte de tempo) e do
universo foram criados pelo Eterno, haqadosh baruch hu, antes da sua criação, num ato
singular, transcendente à nossa realidade4,
conforme o segredo de ברא
ראשית..
Ainda a frase “בראשית
ברא האלים”,
seria lida da forma “ברא
ראשית ברא אלהים” o
que significa. Aquele que criou o início (a primeira palavra
ברא)...
criou também elohim seguindo os Céus e a Terra (a segunda
palavra ברא
que
segue ראשית),
significa: criou as forças e os poderes, que é o significado da
palavra אלהים,
pois a tradição identifica esta a palavra אלהים
como
forças e poderes por meio do qual Ele, haqadosh baruch hu, materializou
o Universo. Entende-se, portanto que antes de D’us criar o
Universo, Ele criou os objetos, poderes e conceitos transcendentes e
fundamentais que o viabilizariam e dariam base ao resto da criação.
Nesse trecho evitamos a tradução que cita princípio cujo
significado não é apenas de um começo, mas também de um
parâmetro, porque a palavra ראשית
significa
literalmente início, como de fato esclarece o Ramban sobre estas
diferenças, logo é a partir dessa criação que começa a existir a
noção de tempo, embora ainda não seja mensurável como o medimos
após a frase de Gen 1,5 que fecha esse conceito já dentro de uma
realidade menos distante da nossa quando diz: houve tarde e manhã, o
dia um. Esta é a primeira vez que um dia está quantificado em tarde
e manhã. O Ramban, falando sobre o assunto, esclarece que isso não
poderia referir-se ao por do sol e o nascer do sol, uma vez que, como
argumentou, disse que isso não seria possível, uma vez que o sol
surgiu apenas no quarto dia, como referido no Gênesis. Ele disse
ainda que qualquer leitor inteligente pode ver que há um problema
nesse relato, e continuando ainda diz mais, explicando que o texto
usa as palavras "vaiehí erev" – porém não quer
dizer "foi a noite". Ele explica que as letras
hebraicas ain, resh, bet, - a raiz de "erev"
- ערב
é
caos5,
mescla, desordem. É por isso que a noite6
se chama "erev", porque quando o sol desce no
horizonte, a visão torna-se confusa. O significado seria então
"houve desordem", ou seja no início do Universo
havia o caos; a desordem. A palavra da Torah para manhã – boker,
é o oposto absoluto de erev, e se diz que quando o sol sobe
do horizonte o mundo torna-se bikoret; ordenado, visitável;
apto para discernir. É por isso que não foi necessário nomear7
o Sol até o dia quarto. Porque da noite para a manhã, há um
caminho da desordem para a ordem; do caos para o
cosmos! Esse é o significado (o que significa ler a Torah
de acordo com a quarta forma) em termos de ciência natural desse
aspecto da Criação.
A
polêmica do caos.
A
Torah inclui logo no início do relato a presença do caos como
componente imprescindível na criação, conforme Gen 1,2 והארץ
הייתה תהו ובהו nas
palavras תהו
ובהו,
traduzidas como sem forma e vazia; um plasma caótico.
Dificilmente alguém iria supor que isso tenha se passado em qualquer
sistema, pois é extremamente ilógico e de certa forma impossível,
diante das conhecidas leis que regem o universo, que a ordem surge da
desordem por razões casuais; ou seja, espontaneamente, embora haja
um número probabilístico que permitiria essa conclusão, mas que
por ser tão infinitamente pequeno, não há como atribuir a esse
número outro valor senão zero! Logo fica claro que é improvável
que algo semelhante venha ocorrer. E a pergunta seria: Diante então
de todo conhecimento atual e que não se pode desprezar, é possível
afirmar que essa improbabilidade tornou-se realidade por acaso?
Talvez alguns religiosos tremam em pensar nesse assunto e até mesmo
o descartem das suas meditações, mas ao contrário desse
procedimento o que interessa é a verdade e as surpresas que nos
retorna a Torah.
Tudo
em desacordo com o que se pode pensar. Uma lei?
Talvez
seja porque o homem admita que sua atual forma de pensar seja a
única, mas ao que parece essa forma é uma entre um número
considerável de tantas outras. Alguém se confundiria com as
palavras; ordem vinda da desordem, desordem vinda da ordem? Embora
pareça absurdo é algo trivial, como se vê no exemplo do cérebro
humano: Observando-se o cérebro a olho nu, vê-se uma massa informe,
quase líquida, mas quando se afina a visão por meio de um
microscópio nota-se uma rede organizada entrelaçando as células
segundo uma rígida regra. De fato essa desorganização é aparente,
pois as funções cerebrais comprovam sua alta organização, embora
no macro seja uma massa desordenada. Nesse caso, à primeira vista
tem-se a impressão que a rígida ordem de formação da rede de
células produz uma aparente desordem como se cada nova célula fosse
criada do nada como nova e inexistente. E a pergunta seria: D’us
estaria criando cada célula ainda hoje, pois de fato a ordem não
pode surgir da desordem? Absolutamente, Ele não estaria criando cada
nova célula do cérebro, mas sim que essas formações estão
presentes no pacote da Criação que embora pareça
desordenado de fato está altamente organizado. De fato essas células
não surgem casualmente, eles existem porque há leis naturais
embutidas nos seus componentes que faz com que se formem da forma
como se formam e não de outra. Há na verdade um projeto minucioso
na Criação!
É
preciso acreditar
Há
uma afirmação simples e quase que desprezível, de que o homem
chega ao conhecimento científico dando como primeiro passo,
acreditar; acredita com fé suficiente que há algo a ser descoberto
em algum lugar, físico ou imaginário que justifica estudos,
investimento e trabalho. Na tomada das decisões é mais fácil
trabalhar do que investir porque o investimento, que representa
valores, vem primeiro sem que haja um resultado concreto imediato.
Primeiro acredita e depois investe, e nunca ao contrário, uma vez
que ninguém investe naquilo em que não acredita! Na verdade essa é
uma lei universal que jamais será suplantada por outra, qualquer que
seja o momento considerado na história da formação do Universo,
pois não é uma lei que faça parte de um sistema material, mas é
um objeto que transcende o início de qualquer início; é algo que
remonta as origens das almas. Sabe-se hoje que as leis naturais
conduzem o desenvolvimento do mundo, e segundo a tradição há uma
quantidade monumental de desenvolvimento que está codificado nos
seis dias da Criação, contudo é impossível, literalmente falando,
visualizar sua inclusão direta no texto de בראשית
sobre
os seis dias. A Torah aparentemente tem o objetivo de despertar o
nosso assombro diante do curso da ordem universal começando de um
plasma caótico e terminando na alta organização da vida!
Principalmente o cérebro humano por meio do qual temos a capacidade
de analisar essas complexidades, e explicá-las! O mundo dia a dia
progride para níveis tecnológicos cada vez mais altos e não
sabemos até onde irá! E a pergunta seria: A ordem surge da
desordem, pois se desenvolve num mundo cujo início se deu no caos? É
o que parece; mas isso em certo ponto de vista é pura termodinâmica.
É o que a Torah vem dizendo, dia a dia; hora por hora, minuto por
minuto, etc.. e isso desde milênios! Por que não se pensou nesses
termos nos milênios precedentes?
Às
vezes coisas muito importantes estão onde menos se espera.
Desprezou-se
essa possibilidade ou ninguém percebeu que utilizava o processo de
acreditar antes de investir e estudar qualquer assunto, inclusive a
Torah? Procurar saber o que a Torah diz, e não em análise
superficial, supor o que a Torah diz. Segundo certa tradição a
atitude desrespeitosa diante do texto santo, foi causa de punições
aos israelitas. Por outro lado toda a punição de pecados é um
alerta para pecadores. O fato é que o Universo não espera que
alguém descubra suas leis e cabe ao homem, a iniciativa se quiser
descobri-las em sua curta existência; pois o tempo voa e já se
passaram aproximadamente 14 bilhões de anos, e incluso nestes os
três milênios de existência da Torah escrita. Passaram três mil
anos tão rapidamente como o último segundo8,
e agora alguns poucos estudantes de ciência reconhecem que os
antigos rabinos tinham um pouco mais de razão do que se supunha,
apesar dos contrários que fizeram o possível e o impossível
para destruir não apenas esse patrimônio9
da humanidade como também a memória dos seus autores e os próprios
estudantes.
E
Alguém, pacientemente preservou a Torah.
Graça
de D’us, as forças contrárias não obtiveram total sucesso em
destruir o legado divino que entre outras coisas abrange não apenas
a organização social como a religião, mas dá a entender a lei
universal da criação segundo a qual os fenômenos observados no
universo são estados diferenciados de uma mesma substância com seus
subprodutos que têm a mesma raiz; a energia primordial como preconizou ribi Nachmânides. Em outras
palavras o espaço e a parte aparentemente sólida, representam
aspectos diferenciados da mesma substância. O espaço, conforme
sugere a Torah, é, ao lado do que se denomina matéria, um estado
energético com movimento e tudo o mais e não apenas um vazio10.
Não seria entendendo tecnologicamente esse aspecto da energia
primordial que se farão viagens inter espaciais a remotíssimas
distâncias, sem as penalidades da inércia segundo postulam as
teorias da relatividade? Ainda não seria por ai, que se viabilizaria
o acesso às tão comentadas dobras do espaço tempo que tornariam o
inalcançável mais perto do que se supõe? Isso é apenas uma
pergunta e talvez eu esteja sonhando além do permitido. De qualquer
forma, acredito que os homens teriam visto e estudado essas ideias há
mais tempo se dessem maior atenção ao texto sagrado.
A
equação do processo da criação segundo as escrituras
Ainda
analisando as palavras: "את
השמים ואת הארץ",
encontradas em Gênesis 1,1 inferimos a mecânica de transformação
da energia primordial, pois é o que diz - "et hashamaim veet
haaretz". Traduzindo ao colóquio local: "os céus e
a terra". Parte-se da premissa que essa ordem de palavras
não foi colocada aleatoriamente, não podendo ser outra como "a
terra e os céus", mas expressam a sequência obrigatória
na transformação da energia primordial, e no desmembramento das
suas propriedades que resultaram na interação espaço tempo e
matéria com suas propriedades e subprodutos. Diante disso, a Torah
sugere (a segunda forma de se ler o Livro) que a energia
primordial manifesta-se nesses estados principais que aparecem nessa
ordem em momento específico; uma parte se expande transformando-se
num aparente abismo negro revelando no seu interior uma pequena parte
transformada em material específico; então para cada formato, surge
uma cavidade para sustê-lo, ou seja; as formas estruturais que
existem no universo são previstas e limitadas. É uma lei que se
repete sempre e em qualquer lugar11;
é o que a Torah sugere segundo meu ponto de vista. De acordo com
estudos atuais, sabe-se que o movimento é uma forma de energia entre
outras formas como o calor, e a luz visível, mas nesse momento ainda
não há luz, e a energia, primordial, embora tenha a luz como um
subproduto, reserva em si todo o calor da energia luminosa; por
inferência também essa expansão é uma forma de energia negra. É
isso que nos disse a Torah, segundo as palavras do Ramban; um "fogo
negro", ou hebreu; "shaĥor esh = שחור
אש".
A
interação Ciência sagrada x Ciência natural.
O
espaço tempo e a matéria estão de tal forma enrolados uns sobre os
outros que um não pode existir sem o outro. As diferenças que se
observam no sistema decorrem das suas funções, por exemplo, na
prática o que se conhece por tempo é um limite de eventos repetindo
sempre a ideia original de início e término, conforme a fórmula
contida nas palavras - בראשית
e
ויהי-ערב
ויהי-בקר
onde
começa sua contagem; no início e foi a tarde e a manhã
– esse foi o tempo12
que limitou o processo, por outro lado é esse processo que revelou
esses limites como uma definição recíproca isso é o que
significa: estão de tal forma enrolados uns sobre os outros.
Representa o mesmo que ocorreu na interação entre expansão e
concentração. Isso é o que significa: o tempo está intimamente
ligado ao sistema, ou seja, o tempo é criado nessa interação e
somente existe nela, por isso não faz sentido falar em tempo senão
nessa interação. Considerando o esquema proposto é impossível
conceituar o tempo de duração desse primeiro dia, por inferência
em diferentes localidades do espaço os tempos também serão
diferentes porque o referencial são as operações internas de cada
um. Talvez possamos inferir de um tempo simultâneo se o evento
ocorre dentro de um espaço em que a luz percorre sua extensão
instantaneamente. Como isso é aproximado, mesmo num sistema
integrado o tempo varia de um local para o outro por quantidades
pequenas, até o que se entende por simultaneidade pode não fazer
sentido. De fato é assim porque há um grau de incerteza nas
medições temporárias. O que a Torah explica que a energia luminosa
visível surge apenas no final desse período de transformação da
energia primordial sendo a partir dele que ocorrerá o início das
concentrações físicas, a partir das quais surge a luz visível
como um subproduto. Na verdade no dia um, o tempo é o embrião das
contagens dos eventos subsequentes; a formação de nuvens de gás e
poeira pela concentração do pó do mundo13;
a parte da energia primordial que migra para uma forma de partículas.
Antes desse período é impossível falar de um tempo e de um cosmos
como conhecido atualmente. Provavelmente haverá correções nos
vários conceitos sobre limites de velocidade no Universo, pois a luz
visível surge quando já há matéria enquanto o espaço negro já
se movimentava expandindo-se, isso é necessário, pois para que a
luz seja notada como realidade objetiva é necessário que haja um
anteparo para interceptar o fóton. Portanto, segundo a tradição,
entendemos que a luz visível é subproduto da matéria, pois somente
pode ser percebida ao refletir-se em algo com dimensão mínima de um
anteparo14.
Interação
entre o sagrado e o natural
Aqui
pareceu adequado mostrar o interessante comentário sobre ribi
Itsĥak Luria em sua explanação da seção sobre veículos.
Interessante notar uma espécie de correspondência dessas ideias
embutidas no Pensamento da criação: 15Ensina
nosso professor, ribi Yitzhak Luria de memória abençoada, que
calculou para nós que as 10 Sephiroth: Keter, Hokhmah, Binah, Hesed,
Gevurah, Tiferet, Netzah, Hod, Yesod e Malkhut convertem-se em apenas
cinco aspectos: Keter, Hokhmah, Binah, Ze'eir Anpin e Malkhut. E este
é o segredo (Sod) do nome de quatro letras (considere aqui o
tetragrama com um ponto sobre o Yod inicial), pois o ponto acima do
Yod é Keter (Coroa), o próprio Yod é Hokhmah (Sabedoria), o Hei é
Binah (Inteligência), o Vav é Ze'eir Anpin (Face Pequena), que
inclui os seis Sephiroth: Hesed (Misericórdia), Gevurah
(Julgamento), Tiferet (Beleza), Netzah (Tolerância Perpétua), Hod
(Majestade), Yesod (Fundação do Mundo) - e o Hei final é Malkhut
(Reino). De onde decorre a interpretação: Agora devemos saber que
as letras e o Sephiroth são realmente um só e o mesmo. Entretanto,
de acordo com o princípio geral que nenhuma Luz se espalha
sem que haja um veículo (anteparo), quando falamos de ambos em conjunto -
isto é dizer quando a Luz é revestida por um veículo - elas
são chamadas Sephiroth. Mas quando falamos dos veículos
sozinhos, eles significam apenas as letras. Este é um segredo
(Sod) que pode ser encontrado no Sefer Maor, onde se diz que a
parte branca do rolo da Torah, alude à Luz, e a parte negra - o
que é dizer as letras - alude aos veículos. Esta explanação
alinha-se com a explanação que ribi Naĥmanides, de memória abençoada,
deu para o segredo (Sod) do verso (Isaías 45:7): "Eu formo
a Luz e crio as Trevas". De certa forma nossos
sábios, conscientes ou inconscientemente, além do significado
místico dessas considerações disseram: Que através das letras da
Torah, haqadosh baruch hu, criou a matéria do mundo e por
meio dela formou a luz visível. Por isso, aí também somos
informados que a luz é um subproduto da matéria que era negra no
princípio, porque a luz somente é visível se houver um anteparo
(veículo) onde se reflita. Isso é apenas uma interpretação
de que a descrição da criação pelo Ari16,
é o reflexo desse universo material e vice-versa, ou seja, ele trata
das bases transcendentes que viabilizaram o Universo. E a pergunta
seria: Haveria uma integração entre a Ciência Sagrada e a Ciência
Natural? É provável que sim. Contudo a partir desse momento já se
pode contar um tempo, baseado na expansão dos corpos e dos limites
do espaço em torno da matéria. Uma vez que a luz precisa de um
tempo, que é avaliado pela variação repetitiva de algum sistema independente, para atingir os limites do universo que já existem, por outro
lado a expansão da luz, quando completa o processo de se refletir17
é que define esses limites de tempo e distâncias. Aliás, este é o
principio de mensuração das grandes distâncias no Universo
visível, ou seja; não se contam mais em medidas espaciais, mas sim
em termos de distâncias percorridas pela luz num determinado tempo.
Evidentemente é por isso que a Torah apenas cita que houve tempo,
após o surgimento da luz: Gen 1, 3 a 5 – “ויומר
אלהים יהי אור ויהי אור” quando
surge a luz e “וירא
אלהים את-האר
כי-טוב”
e
“viu” o Eterno, ou seja; o Universo torna-se passível de ser
visto, entendido apenas no fim da fase que se denominou o primeiro
dia.. e “ויהי-ערב
ויהי-בקר
יום אחד” é
aí que surge o tempo, a contagem do primeiro dia - foi que então o
mundo começou a ser visto, visitável, “entendido” o seu tempo e
suas dimensões passíveis de serem auferidos; pela luz, aliás, como
se faz na física moderna!
As
premissas do conhecimento
Interessante
notar que ao admitir um relógio terrestre, tanto os estudiosos
seculares como os religiosos partem das mesmas premissas uma vez que
medem o tempo utilizado desde o início até hoje, pelas aparentes
voltas do Sol em torno da Terra! A ideia dos religiosos de que o
universo tenha apenas seis mil anos terrestres, e se os dias eram ou
não de vinte e quatro horas, é irrelevante, podendo, ser de
qualquer tempo e até mesmo indeterminado! Podemos imaginar que esse
início teria duração equivalente há alguns bilhões de anos,
alguns dias, algumas horas e mesmo alguns segundos. Em vista da
indefinição desse momento, qualquer sistema será hábil para uma
explicação, como também nenhum. A manifestação do fenômeno
universal se dá no final desse período noturno, com a origem da luz
visível; O dia claro, quando então segundo as palavras do Ramban, o
mundo torna-se bikoret, visitável; é a última fase de
compleição do material que daí para frente se desenvolverá no
universo conhecido.
Talvez
seja necessário algo mais
A
matemática aplicada funciona como uma linguagem18
enquanto propõe-se explicar fenômenos físicos, mas observam-se
limites na compreensão dessas ideias, pois as linguagens expressam
satisfatoriamente conceitos precisos quando dispõe de dados
inteligíveis e reais sobre os objetos. Resta-nos a ideia de que ao
surgir novos dados que expressem a evolução e/ou criação do
universo organizando objetos estranhos à aplicação conhecida,
então as conclusões poderão ser outras bem diferentes. Acredito
haver nesse caso, a interação cabalística com a ciência exata; o
físico com o extra físico revelando outra forma de se compreender a
natureza; a plenitude do homem nesse universo. Isso é algo místico,
impossível, imensurável? Uma pergunta seria: O que já foi tudo
isso anteriormente e que hoje não é apenas trivial? Muita coisa!
Por exemplo: A emissão da imagem televisiva, a transmissão digital
de dados instantaneamente de forma que alguém pode ser visto, ouvido
e entendido em todas as partes do mundo num único intervalo de
tempo! Se Moshê rabenu, alav hasalám, e os profetas antigos observassem essas
coisas, não pensariam que fossemos anjos ou emissários divinos,
manifestando Sua Onipresença? O religioso não pode estranhar isso,
e o cientista não pode prescindir do que considera agora como
místico. O que hoje seja maravilhoso poderá dentro de um tempo
desprezível ser comum. Cientifica, qualitativa e quantitativamente
falando, toda a ação que se materializa em nosso sistema, já foi
necessariamente um mero pensamento, ou mera ação um importante pensamento, movido pela crença de que pode
ser feito e merece investimento e trabalho; isso na verdade é o que
nos diz a ciência sagrada em forma de códigos.
Unidade
e unicidade
Agora
vejamos outro enfoque que explica a criação do tempo observando que
cada dia da criação está numerado, mesmo diante da forma como
estão enumerados. Dessa forma vemos que é dito houve tarde e manhã;
dia um (1) - יום
אחד e
não o dia primeiro – יום
ראשון como
alguém poderia esperar. Observando que nos dias subsequentes, é
dito: יום
שני,
יום
שלשי,...,
ou segundo dia e não dia dois, e terceiro dia, como
alguém poderia esperar. O que significa isso? Que o dia um
não é propriamente o primeiro dia, mas o dia um; único,
separado do contexto dos outros dias; o suporte dos seguintes de onde
é possível fazer uma contagem finita. Contudo muitas traduções feitas pelos não judeus cometem o erro de escrever primeiro dia, talvez
porque os tradutores desconhecedores do idioma hebraico, julguem que na escrita desse trecho o autor
tenha falhado. Aparentemente eles buscam a beleza que consideram
ausente no texto original. Isso sim é um erro porque segundo o
Ramban há uma diferença qualitativa entre “eĥad = um” e
“rishon = primeiro”, aliás, o que até mesmo olhos não
tão sábios podem facilmente perceber. Então agora podemos saber o
que isso significa: É que, eĥad é absoluto e único,
enquanto rishon é relativo19!
Por isso na Torah se faz a diferença entre eĥad e as
posteriores numerações como sheni, shlishi, revi'i, etc..! E
a razão é porque nesse dia D’us criou o tempo, por isso ele é
diferente e porque a partir do dia um (1), que significa o princípio,
é que se começa a contar o tempo, como explicado no início desse
artigo. Interessante notar que a palavra eĥad referindo-se ao
Eterno, na seção do shemá Israel têm exatamente esse
significado; está separado do resto das outras palavras eĥad
na Torah, a despeito das pretensões dos que querem confundir unidade
em seus vários significados com unicidade em seu significado
específico. Ora isso indica mais uma vez que os fatos e as leis do
dia um são diferentes dos fatos e as leis a partir do segundo dia em
diante. As leis são outras completamente diferentes, enquanto nos
dias subsequentes pode-se falar de tempo e dados universais sob leis
já conhecidas; no dia um os objetos e conceitos que dão bases a
essas leis estavam sendo criados. Na verdade é no dia um que
se definiu a interação que a teoria da relatividade demonstrou no
século 20ec, porém o Ramban já havia demonstrado isso há pelo
menos oitocentos anos atrás da data em que escrevo esse artigo. A fonte desses conhecimentos? A Torah é
ai que se encontram segredos fundamentais; o que já sabemos hoje e o
que ainda será conhecido no futuro.
O
Big Bang e a Torah.
Vejamos
por exemplo a mais importante questão levantada pela teoria do Big
Bang: Onde se situa o ponto da explosão primordial e como
localizá-lo? É um fato científico que ao invés de indicar um
ponto único, a radiação de fundo, que se espera ser o resquício
do início do Big Bang, vem de todas as partes e não de um ponto
específico no Universo. Garantem os cientistas que isso ocorre
porque no instante em que se deu a tal explosão, ela teria ocorrido
a partir de uma dimensão fora desse nosso Universo, em que todas as
outras dimensões correriam dentro dela; e que nem espaço, matéria
ou tempo existia ou existe nessa dimensão desconhecida, mas que
essas três variáveis foram criadas no tal Big Bang, que é uma
explosão desconhecida impossível e inconcebível em nosso sistema,
pois se dá para dentro, numa analogia para efeito de estudo, seria o
que hoje podemos pensar em implosão da matéria sob si mesma
engolindo-se completamente e desaparecendo da realidade sem deixar o menor
vestígio. Em relação à direção da radiação de fundo que nos
chega de todos os lados, observemos a ideia do rabino Itschak Luria
Askenazi como define a formação do universo em que havia apenas Luz
pura: E o Criador retirou-se num ponto criando um vácuo rodeado
apenas pela luz pura, ora essa proposta Luriana justifica a causa de
que é por isso que a radiação de fundo teria que vir de todos os
lados, por assim dizer, à volta do Universo, como, aliás, afirmam
os cientistas que utilizam a teoria do Big Bang! E ali começamos
nossos cálculos, porque a primeira palavra ויכלו
tem
o valor de 9 sendo, gematricamente, igual a zero indica um looping,
onde o início une-se com o fim, pois no cálculo gemátrico quando
se atinge o nove, retoma-se a contagem a partir do início. Os
extremos que se encontram nas suas origens, nesse caso representa o
vazio criado segundo a teoria Luriana e que envolve o universo,
preparando a equação para avaliação das palavras, cuja somatória
é 681 e, como o 9 exclui-se seja por adição ou subtração,
teremos que o valor resultante nesse momento é 6, que também é a
letra ו
(vaw)
que é utilizada para conectar todas as outras palavras e também com
a qual se escreve a palavra luz - אור,
o que é muito sugestivo porque eliminando-se o vaw da palavra,
resulta para nós uma indefinição, sem nenhuma alternativa, havendo
necessidade de se escolher entre duas coisas, mas o que será válido
se essas coisas forem já predefinidas como numa teoria, ex:. É isso
ou aquilo, etc... Agora vamos a análise numérica das palavras após
o vaichúlu. Processando a palavra ויכלו
→ ו+ל+כ+י+ו
→ 6+30+20+10+6
= 72 → 7+2 = 9, CQD. Agora somando as palavras 15 = 6+8+1 → 681 =
ארץ
+
שמים
→ א+ר+ץ+ש+מ+י+ם
→ 40+10+40+90+300+200+1,
que é a relação verificada em nosso estudo acima, ou seja
interpretando o texto sagrado, encontramos a definição do valor da
letra vaw que significa a luz; é o valor numérico da interação do
vazio gerado pelo Criador e a formação do Universo a partir deste
vazio e o caldo primordial de luz e poeira (férmions), sendo
por esse meio que se avalia qualquer tipo de distância galáctica
CQD.
Conclusão
Espantemo-nos
com as palavras seguintes: Aparentemente de todas as maneiras o
Talmud e os comentaristas dizem que os seis dias descritos no Gênesis
foram períodos regulares de vinte e quatro horas. Se observarmos
mais um pouco, é possível ver que as fontes clássicas e o Rambam
afirmam que antes do começo não é possível saber o que houve.
Seria impossível dizer o que aconteceu ao Universo. Mas o Midrash
pergunta: Por que a Torah começa com a letra bet? E responde: Porque
a letra Bet está feĥada em todas as três direções menos uma em
seu lado esquerdo, e é por isso que não podemos saber o que vem
antes, mas apenas o que vem depois. De fato o beit inicial significa
ao meu ver as três dimensões que limitam nosso Universo, porém ele
existe e se dinamiza no interior de dimensões desconhecidas que o
envolvem. O Ramban expande essa afirmação, dizendo: Apesar de que
os dias têm vinte e quatro horas, eles contêm em si “kol iemot
haolam”, ou seja; todas as idades e segredos do mundo. Ele
disse ainda que antes do Universo, nada havia e repentinamente toda a
Criação apareceu como um minúsculo grão. Segundo ele a dimensão
desse grão era tão diminuta como de um grão de mostarda. E essa é
a única criação admitida como física, e fora dela tudo o que
havia era D’us! Nesse grão estava toda a matéria prima que seria
utilizada para todo o resto que vemos hoje; o Universo. Ele descreve
essa substancia como um minúsculo grão que se expandiu, de forma
que esta substância tão delgada que não tem essência alguma se
transformou no Universo, com todas as variáveis de energia e matéria
observadas! Mais à frente ele descreve as relações dessa interação
com as palavras: “Misheiesh, itfos bo zman” o que
significa: Desde o momento em que a matéria se formou dessa
substância insubstancial, o tempo estava presente nela! O
tempo foi então criado no começo, quando a matéria se condensa na
expansão; de fato a energia se congela se fixa. Isso é o que nos
ensina a Torah por esse ponto de vista. Novidade para os homens de
ciência? A ciência tem demonstrado que há uma substância
insubstancial que pode ser transformada em matéria sólida; a
energia. A equação de Einstein E = mc2, diz isso e
acrescenta que uma vez que se transformou em matéria, o tempo
aparece na interação. A pergunta seria o que isso significa diante
da Torah? O Ramban fez uma afirmação incrível, como se conhecesse
naquela época a lei da relatividade revelada dessa forma apenas no
século 20ec. Ele talvez não a conhecesse como conhecemos hoje seus
detalhes e implicações, mas deveria conhecer muito do que estava
falando.
Notas
1interessante
notar que este conceito é também citado na teoria do Big Bang,
quando se explica que um observador
nada veria naquele momento.
nada veria naquele momento.
2O
leitor deve observar que há dois nomes aqui citados: Ramban e
Rambam, o primeiro refere-se a Naĥmanides, enquanto o segundo a
Maimônides.
3Utilizo
o termo objeto aplicando-o a esses eventos para simplificar o
raciocínio
4Seria
isso que levaria alguém a opinar que a
nossa realidade não passa de uma ilusão, embora persistente?
Mas como estender esse conceito a toda a humanidade?
5Um
conceito admitido hoje numa das mais importantes e úteis teorias; a
teoria do Caos.
6Ainda
comentaremos sobre esse assunto, pois uma importante teoria atual
sobre a formação do Universo prevê a noite anterior.
7“não
foi necessário nomear”, o que significa que não ainda não fazia
sentido porque várias tarefas ainda não estavam completas e que
dariam a configuração do Universo segundo nossa realidade.
815.000.000.000
= 3000 = 1s? Em artigo anterior vimos que Adão com alguns minutos
de vida já era um homem de vinte e poucos anos.
9A
Torah; o maior legado do Criador à humanidade, além da vida.
10Talvez
alguém possa enxergar aqui uma contradição com as ideias do Ari
ao dizer que foi criado um oco, onde se desenvolveu o espaço. Esse
evento explicado pelo Ari transcende a formação desse Universo que
conhecemos e que decorreu das transformações da energia
primordial, sendo, portanto o seu reflexo.
11Em
tese isso está comprovado cientificamente devido existência dos
aminoácidos em regiões distantes do Universo.
12Nesse
momento é uma comparação com algum processo relacionado com
etapas na conclusão desse processo.
13Vide
Isaías 40, 12
14Faz
lembrar da definição de veículos como ensina R. Itschak Luria.
15Trecho
extraído dos comentários do Rabino Yehuda Ashlag.
16Interessante
notar que na descrição do tzimtzum o Ari cita uma espécie de fio
de luz que curiosamente existe nas entrelinhas da ciência, como a
teoria das cordas e a radiação de fundo. Mesmo porque ele também
cita que há de alguma forma uma espécie de círculo no espaço oco
onde se formou o Universo! Conceitos também existentes nas teorias
científicas do Universo visível e do Universo real.
17Quando
a luz atinge o anteparo, por exemplo, a retina do olho.
18A
matemática aplicada é uma linguagem que, entre outras coisas,
explica o fenômeno físico, etc..
19Echad
é absoluto porque não depende nem de antes ou depois como rishon
que se relaciona com uma sequência.
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