Enigma de Adam

Diferença da célula humana nos sexos e a história de Adão e Eva.
Na época em que eu escrevo este artigo a humanidade vive significativo momento tecnológico que tem possibilitado que importantes descobertas científicas ultrapassem o meio erudito e flua para o vulgo; nunca se divulgou tanto conhecimento de forma tão clara. É também nesse momento histórico que o debate entre ciência e a tradição se torna mais evidente e acirrado, quando traz muito da opinião pessoal de cada lado. Num entendimento coerente, esse comportamento atrasa o conhecimento dos espectadores pendendo entre os debatedores, ou seja, por questões filosóficas os ateus não aceitam e nem procuram investigar algo que possa contestar ou ao menos por sob suspeita a sua crença ateísta, por outro lado, também por questões religiosas os criacionistas, que se consideram cientistas, falham por querer por todos os meios, rejeitar evidências de fatos científicos, validar teorias inviáveis e pra dizer a verdade infundadas quanto à formação do Universo e principalmente quando isso se relaciona com o homem. Assim os dois lados mostram não reunirem condições técnicas para discutir o assunto. É aí que se revela a vantagem de uma posição neutra, numa tentativa da busca de indícios sobre o assunto, a posição mediana entre os enfoques seja religioso ou ateísta para de alguma forma entender se há ou não validade nas opções. Contudo, essa posição mediana não é fácil assumir, pois implica em alguma coisa como "não sei ainda" e "preciso aprender". Mas o nosso grande problema começa com um trecho da tradição bíblica que diz:
"...criou Deus o homem... macho e fêmea os criou..."
O texto hebreu dá uma ideia mais radical e portanto, mais contundente acerca do assunto quando utiliza na frase palavra de sentido explícito:
"wa-ivrah elohim et-haadam ... zachar unkevah barah otám"
"ויברא אלהים את-האדם ... זכר ונקבה ברא אתם"
A diferença está no verbo barah - ברא na forma ivrah ויברא, terceira pessoa do verbo no passado heb. mishinaico (masculino e feminino = zachar unkevah - זכר ונקבה). Esse verbo representa a ação de criar coisa nova a partir do nada! A pergunta seria: haveria alguma forma de que esse relato pudesse traduzir um fato científico da biogenética humana? Ao abordar o texto literalmente a tendência dos cientistas sejam ou não ateus é não aceitar este paradigma da criação, ou seja, que a divindade tenha criado o homem, e nem mesmo o Universo. A pergunta seria: Haveria alguma razão para isso? Depende. Quando se olha o relato do ponto de vista literal, diante da natureza do Universo, isso na verdade parece ser absurdo, inclusive para a época representada no texto! Mas se ao invés de olhar literalmente procura-se um relato simbólico que se traduziria hoje pelo avanço genético haveria sentido? É o que se pretende estudar neste breve artigo.
A pergunta seria: haveria base para explicar o fato de forma simbólica? Sim, mas dentro da tradição mística dos judeus, ou seja, a Cabalah.Tem sido ensinado que há quatro formas ou ações na interpretação da Torah conhecido como PaRDeS, que nada mais é que um acrônimo composto das primeiras letras de quatro palavras ou seja:
  1. Pshat - o texto é interpretado diretamente, de forma literal, empírica, a interpretação é exatamente o que está escrito sem nenhuma consideração adicional.
  2. Remez - na interpretação do texto leva-se em conta se há evidencias, alguma sugestão ou pista que possa levar a um entendimento.
  3. Derush ou derash, - a interpretação possui suporte em pesquisa, no estudo aprofundado com base em conhecimento já adquirido.
  4. Sod ou segredo - não há pista alguma, apenas as, por assim dizer, revelações aparecem ao longo do tempo quando alguém percebe que certo texto, muitas vezes aparentemente absurdo e sem sentido encerra uma verdade geralmente surpreendente. Muito se tem de confusão sobre o Sod e se têm disseminado ensino errôneo ao abordarem este assunto. Dizem ser assunto de magos, contudo a própria Cabalah em seu contexto põe restrições sobre a magia que corre o risco de sofrer influências de seres rebeldes das trevas por se rebelarem em relação à proibição do segredo.
Numa aparente contradição, é nesse momento de tantos e completos conhecimentos científicos, principalmente os que se aplicam à biologia genética do ser humano, que permitem a compreensão e explicação de textos tradicionais obscuros e outrora incompreensíveis que tantas críticas produziram. Entre alguns desses casos encontramos a validação num enfoque científico de detalhes, algumas ideias e enunciados de antigos sábios religiosos e que muitos hoje podem entender como se tratando de uma visão futura, embora criptografada em forma de segredo. Um dos relatos constantes da tradição bíblica referente à gênese humana que se revelou como compreensível nessa era de significativo avanço tecnológico foi a descoberta da estrutura cromossômica da célula humana. Interessante notar que ao se comparar uma célula masculina com uma célula feminina, notam-se diferenças entre os seus cromossomos, que habitualmente se restringem a um par, chamados cromossomos sexuais ou alossomos. Todos os demais, idênticos nas células masculinas e femininas, são autossomos. Observa-se que os cromossomos alossomos do macho e da fêmea diferem da seguinte forma: O macho possui um par de cromossomos sexuais no qual um deles é muito maior que o outro. O maior foi denominado para fins de estudo e aplicações científicas como cromossomo X também conhecido como feminino, enquanto o outro por motivos análogos como cromossomo Y também conhecido como masculino, acrescente-se que é nas células do macho da espécie que se encontram ambos.
No núcleo das células femininas, há um par de cromossomos X, e não há o cromossomo Y. Esse tipo de diferenciação cromossômica só é encontrado nas espécies não - hermafroditas. Hermafroditas são os seres que possuem sistemas de reprodução masculino e feminino funcionando em um mesmo indivíduo. A conhecida minhoca e o caracol de jardim são exemplos: No acasalamento, dois indivíduos se fecundam reciprocamente: os gametas masculinos de um fecundam os gametas femininos de outro, e vice-versa. Interessante notar que dentre os animais e os vegetais, não é uniforme a presença de dois cromossomos sexuais iguais nas fêmeas, e dois diferentes nos machos. Esse achado é observado somente no homem e nas drosófilas, por exemplo, como se vê no quadro comparativo abaixo. 
 

Tabela de cromossomos sexuais
Cada uma das formas de diferenciação cromossômica entre as células masculinas e femininas é conhecida como um sistema cromossômico de determinação sexual. Os mais conhecidos são os sistemas XY, X0 e ZW, dentre estes em nosso texto nos interessa o sistema XY de que faz parte o homem, pois é nos organismos cuja diferenciação obedece ao sistema XY, onde o macho possui, em suas células, dois lotes de cromossomos autossomos (representados para efeito de estudo por 2A) e mais um par de cromossomos sexuais XY. As fêmeas possuem os mesmos dois lotes de autossomos e um par de cromossomos sexuais XX. Interessante notar que a fêmea humana possui uma metade qualitativa, a parte identificada por X, de cromossomos sexuais do sistema XY. Sejam as fórmulas que representam essa relação:
Nos machos, 2A + XY gametas produzidos -> A+X U A+Y.
Nas fêmeas: 2A + XX gametas produzidos -> A+X.
Ora a relação A+X, da célula feminina corresponde à metade qualitativa da relação A+X U A+Y da célula masculina. Verifique a mesma relação entre XY e XX, que também representa essa metade qualitativa! Contudo isso ocorre como já explicado acima, apenas nas células sexuais humanas e alguma pouca exceção. Por isso, como os machos geram dois tipos de gametas (A+X U A+Y), o sexo masculino é heterogamético, daí também o termo heterossexual. O sexo feminino é homo gamético, pois origina apenas um tipo de gameta (A+X), daí também o termo homossexual1. Por inferência se conclui que a determinação do sexo dos descendentes em termos de gametas é dependente do ancestral heterogamético, pois é onde se verifica o cromossomo feminino e o masculino! Contudo efetivamente a geração de um indivíduo heterossexual (macho da epécie) ou homossexual (fêmea da espécie) depende da interação com fatores químicos com o organismo feminino em que se favorecerá a combinação de gametas idênticos ou não. Contudo a forma como a tradição bíblica descreve as gerações, sempre se refere a Adam cuja célula é heterogametica, evidencia encontrar, como uma revelação oculta, pleno apoio nesse importante dado científico. Esses dados esclarecem o suficiente que a célula do elemento feminino possui um tipo de cromossomo, dito feminino enquanto a célula do elemento masculino, além do tipo feminino, possuiu também outro tipo de cromossomo inexistente na célula do tipo feminino: o masculino. O que tem haver isso com o livro? É simples porque quando D’us criou o homem apenas e referindo-se a ele foi dito:
"zachar unkevah bará otám ... macho e fêmea os criou":
Ou seja; segundo o texto as duas possibilidades estavam no homem primordial, que segundo o relato bíblico foi tratado como masculino ele (zakhar2) e ainda..
...e tirou o Eterno uma costela de Adam e com ela fez uma mulher ...”
Uma costela” – a metade qualitativa do par XY -> X, multiplicou por 2 e formou a mulher (enquanto sexo) XX! Ora isso significa que a ordem de criação, conforme registrado na tradição bíblica já estava mostrando aos cientistas como o assunto deveria ser entendido, embora criptografado nas entrelinhas do livro em forma de segredo! Em outras palavras, um dos cromossomos (costela) foi retirado de célula do homem e com ele foi feito um par que compôs o tipo feminino! Evidentemente os escribas desse trecho bíblico embora ignorassem completamente os dados científicos atuais, estavam conceitualmente corretos ao citar por meio de código3 a estrutura cromossômica da célula humana! Que aqueles ignoravam isso é óbvio porque o conhecimento atual somente chegou à humanidade através do trabalho dos cientistas Tjio e Levan que estabeleceram, em 1956 e não antes, que o número diplóide correto de cromossomos do cariótipo humano era 46, sendo composto de 23 pares de cromossomos homólogos: 22 pares 2A + XY (no sexo masculino) ou 2A + XX (no sexo feminino), portanto há muito sentido nesse relato da tradição bíblica, pela lógica: alguém somente pode dar o que tem, pois aparentemente um dos pares de cromossomos foi tirado da célula humana do homem e utilizado na mulher, o que se afigura mais simples e lógico do que admitir que ao homem fosse acrescentado mais um aos da célula da mulher!
  Foto obtida no microscópio eletrônico.
Observe também que na descrição gráfica obtida por fotos dos cromossomos se apresenta forma que bem podem lembrar costelas conforme figura acima do cariótipo humano! Evidentemente, mesmo sem saber, os escritores do livro deram para sua obra algo mais além de informações religiosas ou geradas na mente humana! Espero que ninguém me pergunte como pode ser isso, porque me refiro às coincidências entre o relato criptografado da tradição bíblica e a informação científica sobre a estrutura celular humana. Contudo me pergunto se não há forte indício na ação destes e outros cientistas que já vinham efetuando experimentos sobre o assunto se não teriam partido para esta ideia após considerarem as linhas bíblicas sobre o assunto?
Conclusão
Não podemos fechar este assunto sem uma referência mais enfática quanto aos criacionistas. A maneira como têm conduzido palestras, principalmente quando se propõe a explicar as errôneas teorias da Terra jovem ou a Terra antiga, e sua implicância anti científica com a teoria da evolução levam qualquer analista que conheça o mínimo da biogenética, por exemplo, um estudante mediano, a duas opções: Caso esses palestrantes sejam cientistas estão omitindo fatos verdadeiros e em consequência transmitindo falsos ensinamentos, caso não sejam cientistas são pessoas que discutem o que não dominam completamente e não conhecem, e aí devem considerar a possibilidade de aprender antes de comentar! É difícil nesse momento achar sequer uma única razão que justifique esse procedimento. Não será emitido neste artigo um juízo sobre essa atitude, isso fica por conta do leitor.
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1 Vulgarmente, a palavra homossexual tem sido utilizada também para identificar uma atitude comportamental separada da humanidade, mas sua aplicação científica, nesse caso é totalmente incorreta devido ao que se quer representar em cada caso.
2 Pois a palavra “masculino” significa (זכר) – zakhar.
3 No contexto bíblico essa palavra também pode ser interpretada como segredo e Sod que em certo sentido e não de forma geral expressam essa ideia, porém nas escrituras.

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