Enigmas do Midrash

Há pelo menos oito séculos o Rambam – R. Moshê ben Maimon, esclarecia os leitores de seu comentário da Mishná, acerca das diferentes posturas adotadas em sua época com respeito à compreensão dos Midrashim. Precisamos saber que o Midrash é a coleção dos discursos e comentários bíblicos que os sábios, autores da Mishná compuseram. Estes eram conhecidos como Tanaim e que viveram entre 1ec a 200ec. Esses escritos que compõem os Midrashim tem às vezes aparência trivial, por outras estranha e, às vezes, fantástica. O Rambam, conhecedor dos pensamentos e das mentes brilhantes dos sábios do Talmud, criticou os mestres da época que procuravam entender os Midrashim literalmente. Ele dizia que isso era na verdade decorrente da sua ignorância, pois dessas interpretações, os rabinos queriam fazer acreditar que era possível o que era naturalmente impossível! Em sua opinião, aparentemente esses interpretadores, em nome de pshat, vendo os textos em sua forma literal, pretendiam defender sua autoridade rabínica. Dessa forma não conseguiam senão desacreditar o Midrash e seus autores. Da mesma forma, aqueles que entendendo literalmente o Midrash, acabam por subestimar a capacidade dos seus autores.
O Rambam ensina que o Midrash encerra um segredo (Sod), e os sábios do Talmud conheciam todas as informações legais ao lado de que dispunham de avançada tradição metafísica que acabaram por codificar nas palavras que compõem o Midrash. Nada pode garantir que se descobrissem esses segredos, embora deve-se saber que estão ali, aguardando o momento e as condições de serem desvendados. Muitas vezes, uma mensagem ficou oculta por séculos no formato de um inocente, porém enigmático comentário.
Interessante notar que para a compreensão dos Midrashim, que serão analisados nesse pequeno artigo, fez-se necessário esperar o avanço científico em seus descobrimentos e nos enunciados das suas teorias.
O Midrash de R Abhu

“Amar Ríbi Abhu: hakadoch, bArukh hu, haiá bonê olamot umacharavhem ..”
Brechit Rabá
R Abhu afirmava que durante os primeiros três dias da criação, enquanto o Sol ainda não havia criado, o Todo Poderoso criava mundos e os destruía. A que se refere esse midrach tão misterioso? Que deveria ser entendido literalmente? Vejamos alguns pontos das teorias cosmológicas que nos ajudarão a entendê-los. Com efeito, elas somente se contradizem com o relato bíblico, se deixarmos de considerar a participação de D’us no processo. Mas se partimos de uma criação divina, imediatamente muitos dados começam a coincidir e as contradições desaparecem. Afirma a astrofísica moderna que na formação do universo, apenas foram gerados dois elementos: o hidrogênio e o hélio. Segundo cálculos, mais de 99% do universo é composto por essas partículas que são os elementos mais leves que existem. Isso posto, afirma-se que o Big Bang não gerou nitrogênio, carbono e nem oxigênio, que são elementos mais pesados e essenciais à vida.
Por outro lado, para que estes átomos, mais próximos do orgânico pudessem surgir, houve necessidade de acontecer fusão nuclear para que se formassem. A pergunta seria: Como se produziram essas fusões, que é uma condição necessária para o desenvolvimento da vida? Essa resposta é dada pelas últimas teorias astrofísicas que afirmam que estas partículas apenas podem formar-se de uma maneira: A partir da explosão (destruição) de estrelas, fenômeno conhecido como o surgimento de supernovas! Ou seja, a desagregação de uma estrela em forma de explosão (destruição), que é muito observado no espaço hoje em dia, possibilitado pela nossa alta tecnologia.
Uma vez que determinada estrela queima seu combustível, sua massa se concentra sobre seu próprio núcleo implodindo e ocorre a explosão (destruição). É a este fenômeno que se denomina “supernova”. A partir desta colossal explosão, que também pode ocorrer por uma colisão entre estrelas, se produz fusões de átomos vitais para a formação dos planetas e a aparição da vida. Certamente não é por poesia que os cosmólogos afirmam que somos o “povo das estrelas”, há uma razão científica mensurável e nada poética!
Para que possamos conduzir nosso trabalho, embora baseado no Midrach, fora do aspecto religioso, não entraremos no caso de que apenas nosso planeta tem apresentado as condições necessárias para a consumação da vida. Para alguns, uma super casualidade que supõe que esses elementos se concentraram apenas em nosso planeta Terra.
Interessante notar que R Abhu , evidentemente se a visão técnica atual, afirma algo muito semelhante a este processo no seu Midrach, quando disse: “o Todo Poderoso construía mundos (estrelas) que logo destruía (explodiam). Impressionante? E como! Sinto-me alguém privilegiado por ter conhecido essas coisas nela ocultas dr forma que hoje a ciência confirma suas sugestões codificada e esta, por sua vez, ainda por códigos confirma a ciência. Esclareço que ao citar a Torah tenho em vista que, evidentemente o Midrach e outras obras foracompiladas a partir da mesma fonte. Mas acredito mesmo que isso que temos conseguido compreender até nossos dias, é muito pouco de tudo que há codificado nesse legado, como se acredita, foi entregue por D’us. Em todas culturas nenhum outro livro de cunho religioso manifesta essa propriedade.
Mas voltando ao assunto, devemos saber que o Midrach nada esclarece sobre os motivos da criação, e também a Torah, da sua parte, nos diz que D’us criou o mundo mas, nada diz claramente dos processos como foi criado; quais os meios que Ele utilizou para isso. A pergunta seria: Seria admissível que o Todo Poderoso tenha preparado os princípios da vida por meio desses processos cosmológicos naturais que hoje compreendemos totalmente? Esta parece ser a idéia e a convicção de R Abhu, pois aparentemente é sua opinião que para criar os elementos vitais o Criador se valeu das Supernovas embora não citasse esse nome de “Supernovas”. Tenha sido como for, a atuação divina através de mecanismos naturais, não minimiza o milagre. Na verdade, para o israelita nunca existiu diferença entre a intervenção “milagrosa” de D’us e Sua intervenção permanente na “natureza”. O milagre é caracterizado como tal pela ocasião, motivos e condições em que se manifesta e não na sua característica sobrenatural. Por isso, as palavras de R Abhu, que durante séculos permaneceram incompreensíveis, agora a partir da teoria do “povo das estrelas” adquirem outra dimensão, ou seja explicou-se!.
O Midrach citado por Rachi

“... haor vaĥochekh meĥameĥim beirbuvia, ad chkeaba laze teĥumo baiom velaze teĥumo balaila ...”
Brechit Rabá, - Rachi em Berechit Alef, 4
A luz e as trevas atuavam simultaneamente, até que o Todo Poderoso estabeleceu os limites da luz no dia e das trevas à noite. A Torah diz que o universo ao ser criado, estava numa condição caótica, como diz o versículo: “vehaaretz haita tohu vavohu” “e a Terra na sua criação encontrava-se sem forma e desordenada. O que significa exatamente este “caos”, não é fácil saber. Mas o Midrach aparentemente nos dá algum indicio sobre esse caos. Sabemos que o universo tal como o conhecemos hoje rege-se por certas leis físicas, como: o comportamento da matéria, a gravidade, as leis da termodinâmica, etc...
Quando um cientista inicia a projeção indutiva em sua busca sobre as possíveis origens do universo, se baseia nessa premissa: as leis físicas que conhecemos hoje são eternas e inerentes ao universo. Não seria possível conceber, por exemplo, que a luz e as trevas existam simultaneamente, uma vez que as trevas é a ausência da luz. É uma lei física ou um postulado lógico, tão óbvio que ninguém poderia imaginar ao contrário. Ninguém, com exceção desse Midrach, que afirma exatamente o oposto!
Para compreender melhor o que o Midrach disse recorremos uma vez mais a Maimônides. Em seu famoso livro filosófico More Nevuchim, Maimônides refutava a teoria aristotélica do Universo eterno e estático, postura que, a propósito, há bem poucos anos foi refutada e definitivamente rechaçada pela comunidade cientifica (Einstein considerou que o maior erro profissional da sua carreira foi não haver aceitado as evidências de um universo em expansão, logo finito.
Na sua exposição a favor de um mundo produzido ex nihilo por um Criador Supremo, Maimônides afirma que, provavelmente, parte da dificuldade para descobrir os princípios de como a criação foi acionada no princípio, é que as “condições iniciais” no momento da Criação tenham sido totalmente diferentes e portanto desconhecidas para nós hoje em dia e contrárias a tudo o que hoje nos parece natural.
Maimônides nos apresenta um fantástico exemplo: No seu livro, o Guia dos Perplexos, ele arrazoa: Se um menino tenha sido abandonado desde pequeno em uma ilha deserta e crescera sem conhecer outras pessoas ou animais e alguém depois de alguns anos lhe perguntasse: Como tu acreditas que tenhas nascido? Poderia esse menino conceber a possibilidade de ter nascido de uma gravidez? Maimônides considerou que não, pois o jovem afirmaria que seria impossível alguém viver dentro de um ventre, sem ar, sem água e sem alimentos... consideraria que essa teoria estava em contradição com todas as leis fisiológicas que ele conhecia. Em outras palavras, o que Maimônides disse é que não é possível deduzir a embriologia a partir de nossos conhecimentos de fisiologia.
Segundo ele, se tratássemos de fazer isso, chegaríamos a conclusões absurdas. As leis que regem um e outro sistema são completamente distintas. Da mesma forma, afirmam ser o ato da criação, de acordo com próprio relato da Torah, que da conta de um estado inicial “caótico”, o que significa dizer sem as leis físicas que conhecemos hoje.
A primeira lei física que D’us estabelece no mundo, se relaciona com o comportamento da luz, ou seja, da energia. Os princípios da enigmática física quântica, é o que concluiríamos hoje. A Torah afirma que o Criador distinguiu entre a luz e as trevas porque até então esta lei lógica e essencial ainda não havia sido estipulada. A matéria foi criada em estado caótico, ao passo que as leis físicas apareceram em segundo lugar, como decorrência da interação; as propriedades do mundo na configuração atual.
Este conceito é tão claro para os sábios do Talmud, que ao fazer referência à possibilidade de que o Criador poderia destruir seu mundo disseram:
“.. haia machazir et haolam letohu vavohu ..”
O que é dizer:
“O mundo voltaria ao seu caos inicial” e, por conseqüência, iriam desaparecer as leis físicas, com o mundo que se destruiria. O Midrach, que fala da coexistência da luz e das trevas, afirma que as leis físicas não são inerentes à matéria, sendo uma fase posterior decorrente da matéria já formada. As leis físicas na realidade, resultam desse arranjo da matéria.
De acordo com R Chlomo ben Melech, este foi também o processo que o Criador estabeleceu para a humanidade: primeiro, o homem foi criado, e houve caos, e logo depois o Todo Poderoso lhe concedeu a Torah; Sua Lei.
As conclusões desse Midrach são de grande alcance: nosso desconhecimento das leis físicas iniciais não nos permite inferir desde aqui o que se passava lá. Ignoramos as condições iniciais da Criação.
Conclusão
Mesmo ignorando as condições iniciais da criação, talvez possamos imaginar uma certa lei incompreensível na configuração atual do universo, propondo uma hipótese sobre determinada lei perfeitamente compreensível antes da criação do mundo. Consideremos mais um Midrach que dará um ideia sobre a inexistência do tempo, aliás algo definido no século passado pelas ideias de Einstein corroboradas por outros sábios.
Midrach de R. Iehochua:
“Amar R. Iehochua Ben haLevi: kol maasê brechit bechlemut nivr’u…”
Roch haChana, 11a
Disse R. Iehochua Ben haLevi: todas as obras da criação foram criadas em sua plenitude.
Nenhum de nós ignora que um dos conflitos mais polêmicos, entre a cosmologia da ciência moderna e as opiniões dos teólogos, está exatamente nos cálculos da idade do Planeta. Qual a idade da Terra? 5775 anos solares, como diz a tradição, ou os 4.5 bilhões de anos solares como calcularam os cientistas? Esse conflito parece insolúvel e seria impossível admitir que se trata de um erro de cálculo científico, ou mesmo pretender que tal diferença esteja dentro de uma margem de erro aceitável ou que poderia ocorrer em uma ou outra computação.
Muitas tentativas de responder a essa questão tem sido emitidas e às vezes por meio de apologias que em nenhuma hipótese satisfazem a verdade dos fatos, ou a hipótese mais próxima e científica. Em que se pese as opiniões dos criacionistas, a ciência dispõe de fatos irrefutáveis como: A existência de cadeias montanhosas, rochas milenares e outros fenômenos geológicos contra os quais não há argumentos, e que demandaram até esse estado uma evolução muito lenta. O testemunho do espaço ao redor da Terra é ainda mais surpreendente quando se considera que a maioria das luzes que observamos hoje, surgiram a mais de cem milhões de anos terrestres. A pergunta seria: Como se pode falar de 5775 anos da existência do mundo? Essa é a maravilha em tudo isso, pois o Midrash que estudamos provê a chave correta para uma resposta que elimina este conflito.
Os sábios do Midrash há dois mil anos fizeram uma pergunta aparentemente desconexa: Como e com que idade o primeiro homem foi criado? Como um bebê ou como um adulto? A resposta que deram esclarece que Adão foi criado com um corpo de um homem de vinte (20) anos, em todo o seu vigor, é o que se lê em Breshit Rabá.
A pergunta que os cientistas fazem a si mesmos, da origem do primeiro homem, tem a resposta que o primeiro homem, por questões de reprodução, deveria ter uma idade entre 18 e 22 anos. É um consenso científico que o primeiro homem, somente poderia ser um adulto, e nunca um bebê, ou mesmo um bebê filho de uma macaca, pois o animal não cuida do filhote todo o tempo que um homem cuida do seu! Mesmo porque, um filhote de homem com a idade de um filhote de macaco não teria a desenvoltura natural deste e se fosse tratado como as macacas tratam os seus, morreria logo em seguida. Agora por mais que alguém se esforce para explicar outra forma, a única hipótese plausível e a mais simples seria que o homem apareceu pronto para começar a reprodução. E seja isso por evolução ou criação já foi feito assim. Inclusive pela estrutura cromossômica da célula sexual humana, esse fenômeno somente se concebe se existir uma criação! E como já dizia o Midrash: “em sua plenitude”. Mas isso somente foi visto e admitido agora com os avanços da ciência e dos seus mais recentes enunciados.
Se por hipótese, como já sabemos, o homem reprodutor da espécie, já aparece, por criação, pronto, e também por hipótese se o homem apareceu sem nenhuma razão qualquer, também deveria aparecer pronto, pergunta-se: “com que idade seria mais provável aparecer”?
A aparência seria de um adulto, mas o tempo decorrido seria de alguns segundos, minutos ou horas, etc., dependendo do instante em que o evento é abordado. Grosso modo, sabemos que a idade de um adulto, nesse caso especial é ilusória, ou seja; ela não existe, mas mesmo não existindo, é uma realidade diante do homem feito. Ambos esses números satisfazem e explicam simultaneamente o surgimento do tal primeiro homem, que tem alguns minutos de vida e ao mesmo tempo cerca de vinte anos, porque na verdade esse é o tempo em que um homem deve viver para ter aquela aparência!
A pergunta seria: Poderíamos concluir, numa aparente contradição que esses números são os mesmos, porque expressam ambos a mesma informação: a idade em termos de tempo real? Por outro lado, poderíamos concluir que, diante do infinito da eternidade, esses números na verdade são tão pequenos que são igualmente desprezíveis?
Diante desses estudos, gostaria de dar a minha opinião de que não perdemos o nosso tempo acreditando e estudando a Torah, e aqueles que isso não fizeram podem retomar os estudos, pois ainda há tempo.

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